Dando continuidade às postagens especiais dedicadas aos 30 anos de
T... não, espera.
Legacy of Kain é uma franquia que se consolidou por sua trama e
universo. Embora eu esteja longe de me considerar um fã, pude conferir alguns
dos jogos graças às remasterizações lançadas recentemente (Soul Reaver 1&2
e
Defiance), bem como o primeiro título inédito em mais de duas décadas (Ascendance), cuja recepção não foi tão boa quanto o esperado.
Ainda não encarei os dois Blood Omen, mas um dos extras de Defiance chamou minha atenção. Assim
como aconteceu com as remasterizações de Tomb Raider, fãs foram contratados para trabalhar no jogo e a galeria de extras (que nós
não recebemos) reflete isso: ela inclui extensas descrições e resumos dos
acontecimentos da saga de Kain e Raziel. De fãs para fãs, literalmente.
Considerando que o trabalho de localização (que traz uma excelente dublagem,
diga-se de passagem) por algum motivo não conta com a tradução desse texto em particular,
decidi fazer uma para o blog por motivos de sim. É uma tradução livre e manual,
como de praxe no blog Raider Daze, mas procurei preservar o
contexto e eloquência do texto original.
E, relembrando, 2026 marca o trigésimo aniversário da série Legacy of Kain.
[ * * * ]
A história de Nosgoth
Nos séculos antes do nascimento de Kain, a terra era protegida por uma
oligarquia de feiticeiros conhecidos como o Círculo dos Nove. Esses guardiões
haviam jurado servir e proteger aos Pilares de Nosgoth, um antigo e imponente
edifício que erguia-se como uma manifestação do poder misterioso que deu e
preservou a vida na terra. Mas o Círculo foi infiltrado por forças sombrias e
Ariel, a Guardiã do Equilíbrio, foi cruelmente assassinada.
O seu assassinato causou repercussões psíquicas em todo o Círculo, e em sua
desorientação os feiticeiros remanescentes passaram a usar seus poderes para
fins sombrios, envenenando a terra com feitiçaria e abandonando os Pilares
como sentinelas silenciosas e decadentes.
Foi nesse mundo moribundo que Kain nasceu.
Filho de uma família da aristocracia de Nosgoth, ele teve uma vida
privilegiada e de nobreza, sem nunca perceber seu destino ainda não
pronunciado: ele estava marcado desde seu nascimento para tornar-se o sucessor
de Ariel, destinado a tomar seu lugar como o Guardião do Equilíbrio.
Ignorante quanto ao seu próprio destino, Kain, ambicioso mas sem rumo,
percorreu a terra e, durante sua jornada fatídica, ele foi emboscado e
assassinado por salteadores, cruelmente empalado na espada do bandido que o
assassinou.
Resgatado à beira do esquecimento pelo necromante Mortanius, Kain despertou no
Submundo, ainda transfixado pela lâmina de seu inimigo. Tormentado por seu
desejo de vingança, e negligente ao custo espiritual, Kain imprudentemente
aceitou a oferta de vingança do necromante e levantou-se de sua tumba para
descobrir que havia sido ressuscitado como um vampiro.
Kain rapidamente rastreou seus assassinos e obteve sua retaliação sangrenta.
Com sua vingança e desejo saciados, ele passou a procurar apenas por uma cura
para a maldição vampírica que o afligia. Guiado por Mortanius e pelo espectro
de Ariel, agora desamparada e aprisionada aos Pilares decadentes aos quais ela
serviu, Kain caçou cada um dos feiticeiros corruptos que passaram a envenenar
Nosgoth.
Apenas com suas mortes os Pilares poderiam ser curados, e apenas com a
restauração do Equilíbrio que Kain poderia ser libertado de sua maldição
vampírica. De início relutante em viver o horror de uma existência flagelada
pela sede de sangue humano, Kain logo adaptou-se e descobriu, dentro de sua
alma agora sombria, um crescente desafeto pela humanidade conforme ele aceitou
sua recém-descoberta imortalidade.
Durante sua jornada, Kain descobriu e tomou a Soul Reaver, uma antiga lâmina
devoradora de almas, e encontrou — não por coincidência — um dispositivo para
manipular o fluxo temporal criado por Moebius, o Guardião do Tempo.
Contrariando os conselhos do vampiro ancião Vorador, Kain se encontrou
enredado em eventos dos humanos, pego em uma batalha sangrenta entre o
Exército da Esperança do Rei Ottmar e o exército em avanço implacável de
Nemesis, do norte. Quando a maré da batalha virou, Kain usou seu único método
de fuga, o dispositivo temporal, e foi arrastado para quase cinquenta anos no
passado de Nosgoth.
Esperando alterar o rumo da história de Nosgoth, Kain assassinou o jovem Rei
William, o Justo, que estava destinado a transformar-se no diabólico tirano
conhecido como Nemesis. Após saciar-se com o sangue de sua vítima, Kain
retornou ao presente, apenas para descobrir que, ao assassinar o adorado rei,
ele deu início a uma guerra genocida contra vampiros, coordenada pelo próprio
manipulador do tempo, Moebius. Em seu retorno, Kain testemunhou o futuro que
ele havia forjado, e o ato final e triunfante da corja de sangue-frio de
Moebius.
Vorador, o último dos vampiros da era, foi decapitado com uma guilhotina e sua
cabeça foi erguida ao alto para um público satisfeito, com sede de sangue,
dessa forma fazendo com que Kain fosse o último sobrevivente vampiro em
Nosgoth. Como sua jornada o trouxe de volta ao início, Kain confrontou o
destino que Mortanius e Ariel haviam escondido dele, sobre ser o Guardião do
Equilíbrio, e que apenas seu próprio sacrifício poderia restaurar os Pilares.
Ariel apresentou uma decisão final e assomada: sacrificar a si mesmo para
curar a terra, mas causando a extinção dos vampiros; ou recusar o sacrifício e
condenar o mundo à corrupção. Revoltado pelas maquinações dos feiticeiros
humanos e alienado de sua antiga humanidade, Kain escolheu o segundo dos
caminhos, optando por governar um mundo condenado ao invés de lançar a si
mesmo no esquecimento.
Esse ato apocalíptico finalizou a destruição dos Pilares, as imponentes
colunas desabaram enquanto Kain selava seu destino em ruínas, e condenou Ariel
a assombrar incessantemente os Pilares aos quais ela uma vez já serviu agora
dilapidados. Enquanto o Equilíbrio não for restaurado, ela jamais será livre.
Kain teve uma epifania de que Vorador estava certo: o vampirismo não é uma
maldição, mas sim uma benção. Os vampiros são deuses sombrios cujo dever é
desbastar o rebanho humano. Com uma ironia intencional, Kain estabeleceu os
Pilares arruinados como um simbólico assento de seu novo império, e o Pilar do
Equilíbrio derrocado como a base de seu trono.
Em um ato calculado de blasfêmia, Kain invadiu a tumba antiga dos Sarafans,
uma ordem fanática de sacerdotes guerreiros que juraram erradicar os vampiros
que praguejavam Nosgoth. Dos cadáveres desidratados desses cavaleiros mortos
há tempos, Kain ergueu seus seis "filhos" vampíricos para torná-los Tenentes
em seu império despontante.
Mas os Pilares, Kain percebeu, eram mais do que um edifício humano. A saúde
dos Pilares estava inextricavelmente vinculada a saúde da terra. Como os
Pilares foram mantidos em ruínas, a corrupção espalhou-se vagarosamente pela
terra como um veneno, tornando seu império em um deserto condenado.
Ao invés de evoluir lentamente com o tempo, os vampiros experienciaram
períodos de metamorfose acelerada, entrando em estados de dormência dos quais
retornavam transformados. Quando Raziel, o primeiro dos Tenentes de Kain,
revelou sua mais recente evolução, um par de asas como as de um morcego, Kain
reagiu com um ato de sadismo egoísta.
Arrancando as recém-desenvolvidas asas das costas de Raziel, ele ordenou que
Raziel fosse lançado ao Lago dos Mortos, onde ele iria queimar eternamente no
agitado Abismo. Raziel cambaleou interminavelmente nas profundezas turvas, sua
carne foi dissolvida enquanto ele queimava com o fogo incandescente.
Após uma eternidade de tormento, o corpo arruinado de Raziel enfim repousou, e
quando a dor diminuiu, ele percebeu que não apenas tinha sobrevivido à queda,
mas havia sido levado para o assento do Submundo.
Como havia acontecido com Kain, Raziel foi resgatado à beira do esquecimento
por um benfeitor misterioso, um deus preternatural e ancestral que habita as
profundezas do Abismo, que transformou Raziel em um devorador de almas e o
soltou de volta no mundo para que ele pudesse cumprir sua vingança.
Raziel, agora o mais novo anjo da morte do Deus Antigo, retornou à superfície para descobrir que séculos haviam inexplicavelmente se passado desde sua execução. O império de Kain estava em ruínas, e Raziel encontrou-se cercado pelas criações degeneradas de seus antigos irmãos, que há tempos haviam degradado a formas monstruosas.
Inabalado por essas revelações, Raziel perseguiu Kain pelas paisagens devastadas de Nosgoth, galvanizado por uma fome de vingança e uma implacável nova sede — mas não por sangue humano, pas sim pelas almas apóstatas dos vampiros. Kain, entretanto, tinha outros planos para Raziel.
Aparentemente não surpreendido pelo retorno milagroso de Raziel, Kain provocou Raziel em seu trajeto obstinado de vingança, canalizando ele a batalhar seus irmãos mutados e a um confronto decisivo nos Pilares, onde Kain ergueu a Soul Reaver contra Raziel. A lâmina antiga, que acreditava-se ser indestrutível, estilhaçou-se quando Kain tentou abater Raziel.
A senciência devoradora de almas enclausurada na lâmina foi assim libertada, e, ao fundir-se a Raziel como uma lâmina espectral, transformou-se em uma arma simbiótica. Kain não ficou atônito mas, sim, estranhamente satisfeito com esse chocante resultado, e atraiu Raziel para as terras devastadas ao norte de Nosgoth, conduzindo-o até o confronto final na câmara abandonada da Cronoplasta de Moebius.
Motivado por visões fatalistas reveladas pelos dispositivos de Moebius, Kain ativou o portal de manipulação temporal que iria lançar tanto a ele quanto a Raziel séculos para dentro do passado de Nosgoth. O livre arbítrio, Kain temia, poderia ser apenas uma ilusão — mas ele sabia que os destinos de ambos estavam entrelaçãos de formas que Raziel ainda não tinha começado a compreender.
Varrido para a história primitiva de Nosgoth, Raziel começou a desvendar os segredos de seu passado: como sua vinda havia sido pressagiada por uma raça antiga, os Vampiros originais de Nosgoth, que haviam forjado a Soul Reaver para seu campeão, como a arma de sua salvação; como ele mesmo massacrou os tenentes dos Sarafans, sendo seu próprio assassino e como ele assim transformou-se no catalisador não apenas do futuro império de Kain, mas de seu próprio destino sombrio; e, finalmente, como ele estava destinado a se tornar o espírito voraz aprisionado dentro da lâmina Soul Reaver. Esse era, e sempre foi, o ciclo infernal de seu destino. A lâmina espectral, ele finalmente entendeu, era sua própria alma, eternamente geminada e vinculada a ele.
Com motivações ainda mais misteriosas, Kain tentou alterar a história ao prevenir que a lâmina consumisse a alma de Raziel. Mas Raziel, quase obliterado pela Soul Reaver, percebeu que jamais poderia escapar desse destino terrível... Kain havia apenas postergado esse fim.