sábado, 27 de junho de 2026

A história de Nosgoth

Dando continuidade às postagens especiais dedicadas aos 30 anos de T... não, espera.

Legacy of Kain é uma franquia que se consolidou por sua trama e universo. Embora eu esteja longe de me considerar um fã, pude conferir alguns dos jogos graças às remasterizações lançadas recentemente (Soul Reaver 1&2 e Defiance), bem como o primeiro título inédito em mais de duas décadas (Ascendance), cuja recepção não foi tão boa quanto o esperado.
 
Ainda não encarei os dois Blood Omen, mas um dos extras de Defiance chamou minha atenção. Assim como aconteceu com as remasterizações de Tomb Raider, fãs foram contratados para trabalhar no jogo e a galeria de extras (que nós não recebemos) reflete isso: ela inclui extensas descrições e resumos dos acontecimentos da saga de Kain e Raziel. De fãs para fãs, literalmente.

Considerando que o trabalho de localização (que traz uma excelente dublagem, diga-se de passagem) por algum motivo não conta com a tradução desse texto em particular, decidi fazer uma para o blog por motivos de sim. É uma tradução livre e manual, como de praxe no blog Raider Daze, mas procurei preservar o contexto e eloquência do texto original.
 
E, relembrando, 2026 marca o trigésimo aniversário da série Legacy of Kain.

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A história de Nosgoth

Nos séculos antes do nascimento de Kain, a terra era protegida por uma oligarquia de feiticeiros conhecidos como o Círculo dos Nove. Esses guardiões haviam jurado servir e proteger aos Pilares de Nosgoth, um antigo e imponente edifício que erguia-se como uma manifestação do poder misterioso que deu e preservou a vida na terra. Mas o Círculo foi infiltrado por forças sombrias e Ariel, a Guardiã do Equilíbrio, foi cruelmente assassinada.

O seu assassinato causou repercussões psíquicas em todo o Círculo, e em sua desorientação os feiticeiros remanescentes passaram a usar seus poderes para fins sombrios, envenenando a terra com feitiçaria e abandonando os Pilares como sentinelas silenciosas e decadentes.

Foi nesse mundo moribundo que Kain nasceu.

Filho de uma família da aristocracia de Nosgoth, ele teve uma vida privilegiada e de nobreza, sem nunca perceber seu destino ainda não pronunciado: ele estava marcado desde seu nascimento para tornar-se o sucessor de Ariel, destinado a tomar seu lugar como o Guardião do Equilíbrio.

Ignorante quanto ao seu próprio destino, Kain, ambicioso mas sem rumo, percorreu a terra e, durante sua jornada fatídica, ele foi emboscado e assassinado por salteadores, cruelmente empalado na espada do bandido que o assassinou. 

Resgatado à beira do esquecimento pelo necromante Mortanius, Kain despertou no Submundo, ainda transfixado pela lâmina de seu inimigo. Tormentado por seu desejo de vingança, e negligente ao custo espiritual, Kain imprudentemente aceitou a oferta de vingança do necromante e levantou-se de sua tumba para descobrir que havia sido ressuscitado como um vampiro.

Kain rapidamente rastreou seus assassinos e obteve sua retaliação sangrenta. Com sua vingança e desejo saciados, ele passou a procurar apenas por uma cura para a maldição vampírica que o afligia. Guiado por Mortanius e pelo espectro de Ariel, agora desamparada e aprisionada aos Pilares decadentes aos quais ela serviu, Kain caçou cada um dos feiticeiros corruptos que passaram a envenenar Nosgoth.

Apenas com suas mortes os Pilares poderiam ser curados, e apenas com a restauração do Equilíbrio que Kain poderia ser libertado de sua maldição vampírica. De início relutante em viver o horror de uma existência flagelada pela sede de sangue humano, Kain logo adaptou-se e descobriu, dentro de sua alma agora sombria, um crescente desafeto pela humanidade conforme ele aceitou sua recém-descoberta imortalidade.

Durante sua jornada, Kain descobriu e tomou a Soul Reaver, uma antiga lâmina devoradora de almas, e encontrou — não por coincidência — um dispositivo para manipular o fluxo temporal criado por Moebius, o Guardião do Tempo.

Contrariando os conselhos do vampiro ancião Vorador, Kain se encontrou enredado em eventos dos humanos, pego em uma batalha sangrenta entre o Exército da Esperança do Rei Ottmar e o exército em avanço implacável de Nemesis, do norte. Quando a maré da batalha virou, Kain usou seu único método de fuga, o dispositivo temporal, e foi arrastado para quase cinquenta anos no passado de Nosgoth.

Esperando alterar o rumo da história de Nosgoth, Kain assassinou o jovem Rei William, o Justo, que estava destinado a transformar-se no diabólico tirano conhecido como Nemesis. Após saciar-se com o sangue de sua vítima, Kain retornou ao presente, apenas para descobrir que, ao assassinar o adorado rei, ele deu início a uma guerra genocida contra vampiros, coordenada pelo próprio manipulador do tempo, Moebius. Em seu retorno, Kain testemunhou o futuro que ele havia forjado, e o ato final e triunfante da corja de sangue-frio de Moebius.

Vorador, o último dos vampiros da era, foi decapitado com uma guilhotina e sua cabeça foi erguida ao alto para um público satisfeito, com sede de sangue, dessa forma fazendo com que Kain fosse o último sobrevivente vampiro em Nosgoth. Como sua jornada o trouxe de volta ao início, Kain confrontou o destino que Mortanius e Ariel haviam escondido dele, sobre ser o Guardião do Equilíbrio, e que apenas seu próprio sacrifício poderia restaurar os Pilares.

Ariel apresentou uma decisão final e assomada: sacrificar a si mesmo para curar a terra, mas causando a extinção dos vampiros; ou recusar o sacrifício e condenar o mundo à corrupção. Revoltado pelas maquinações dos feiticeiros humanos e alienado de sua antiga humanidade, Kain escolheu o segundo dos caminhos, optando por governar um mundo condenado ao invés de lançar a si mesmo no esquecimento.
 
Esse ato apocalíptico finalizou a destruição dos Pilares, as imponentes colunas desabaram enquanto Kain selava seu destino em ruínas, e condenou Ariel a assombrar incessantemente os Pilares aos quais ela uma vez já serviu agora dilapidados. Enquanto o Equilíbrio não for restaurado, ela jamais será livre.

Kain teve uma epifania de que Vorador estava certo: o vampirismo não é uma maldição, mas sim uma benção. Os vampiros são deuses sombrios cujo dever é desbastar o rebanho humano. Com uma ironia intencional, Kain estabeleceu os Pilares arruinados como um simbólico assento de seu novo império, e o Pilar do Equilíbrio derrocado como a base de seu trono.

Em um ato calculado de blasfêmia, Kain invadiu a tumba antiga dos Sarafans, uma ordem fanática de sacerdotes guerreiros que juraram erradicar os vampiros que praguejavam Nosgoth. Dos cadáveres desidratados desses cavaleiros mortos há tempos, Kain ergueu seus seis "filhos" vampíricos para torná-los Tenentes em seu império despontante.

Mas os Pilares, Kain percebeu, eram mais do que um edifício humano. A saúde dos Pilares estava inextricavelmente vinculada a saúde da terra. Como os Pilares foram mantidos em ruínas, a corrupção espalhou-se vagarosamente pela terra como um veneno, tornando seu império em um deserto condenado.

Ao invés de evoluir lentamente com o tempo, os vampiros experienciaram períodos de metamorfose acelerada, entrando em estados de dormência dos quais retornavam transformados. Quando Raziel, o primeiro dos Tenentes de Kain, revelou sua mais recente evolução, um par de asas como as de um morcego, Kain reagiu com um ato de sadismo egoísta.

Arrancando as recém-desenvolvidas asas das costas de Raziel, ele ordenou que Raziel fosse lançado ao Lago dos Mortos, onde ele iria queimar eternamente no agitado Abismo. Raziel cambaleou interminavelmente nas profundezas turvas, sua carne foi dissolvida enquanto ele queimava com o fogo incandescente.

Após uma eternidade de tormento, o corpo arruinado de Raziel enfim repousou, e quando a dor diminuiu, ele percebeu que não apenas tinha sobrevivido à queda, mas havia sido levado para o assento do Submundo.
 
Como havia acontecido com Kain, Raziel foi resgatado à beira do esquecimento por um benfeitor misterioso, um deus preternatural e ancestral que habita as profundezas do Abismo, que transformou Raziel em um devorador de almas e o soltou de volta no mundo para que ele pudesse cumprir sua vingança.

Raziel, agora o mais novo anjo da morte do Deus Antigo, retornou à superfície para descobrir que séculos haviam inexplicavelmente se passado desde sua execução. O império de Kain estava em ruínas, e Raziel encontrou-se cercado pelas criações degeneradas de seus antigos irmãos, que há tempos haviam degradado a formas monstruosas.

Inabalado por essas revelações, Raziel perseguiu Kain pelas paisagens devastadas de Nosgoth, galvanizado por uma fome de vingança e uma implacável nova sede — mas não por sangue humano, pas sim pelas almas apóstatas dos vampiros. Kain, entretanto, tinha outros planos para Raziel.

Aparentemente não surpreendido pelo retorno milagroso de Raziel, Kain provocou Raziel em seu trajeto obstinado de vingança, canalizando ele a batalhar seus irmãos mutados e a um confronto decisivo nos Pilares, onde Kain ergueu a Soul Reaver contra Raziel. A lâmina antiga, que acreditava-se ser indestrutível, estilhaçou-se quando Kain tentou abater Raziel.

A senciência devoradora de almas enclausurada na lâmina foi assim libertada, e, ao fundir-se a Raziel como uma lâmina espectral, transformou-se em uma arma simbiótica. Kain não ficou atônito mas, sim, estranhamente satisfeito com esse chocante resultado, e atraiu Raziel para as terras devastadas ao norte de Nosgoth, conduzindo-o até o confronto final na câmara abandonada da Cronoplasta de Moebius.

Motivado por visões fatalistas reveladas pelos dispositivos de Moebius, Kain ativou o portal de manipulação temporal que iria lançar tanto a ele quanto a Raziel séculos para dentro do passado de Nosgoth. O livre arbítrio, Kain temia, poderia ser apenas uma ilusão — mas ele sabia que os destinos de ambos estavam entrelaçãos de formas que Raziel ainda não tinha começado a compreender.

Varrido para a história primitiva de Nosgoth, Raziel começou a desvendar os segredos de seu passado: como sua vinda havia sido pressagiada por uma raça antiga, os Vampiros originais de Nosgoth, que haviam forjado a Soul Reaver para seu campeão, como a arma de sua salvação; como ele mesmo massacrou os tenentes dos Sarafans, sendo seu próprio assassino e como ele assim transformou-se no catalisador não apenas do futuro império de Kain, mas de seu próprio destino sombrio; e, finalmente, como ele estava destinado a se tornar o espírito voraz aprisionado dentro da lâmina Soul Reaver. Esse era, e sempre foi, o ciclo infernal de seu destino. A lâmina espectral, ele finalmente entendeu, era sua própria alma, eternamente geminada e vinculada a ele.

Com motivações ainda mais misteriosas, Kain tentou alterar a história ao prevenir que a lâmina consumisse a alma de Raziel. Mas Raziel, quase obliterado pela Soul Reaver, percebeu que jamais poderia escapar desse destino terrível... Kain havia apenas postergado esse fim.