O mundo não gira, ele capota.
Há 20 anos eu fiz, para mim mesmo, a promessa que iria conferir os jogos da série Legacy of Kain, e, aos poucos, finalmente estou progredindo — ano passado, alguns
meses após eu finalizar
Soul Reaver 1&2 Remastered, a Amazon Prime ofereceu Defiance em seu programa de jogos
gratuitos. Resgatei sem pestanejar, mas entre a falta de tempo, de energia, ou de
interesse, ficou em segundo plano.
Lá pelas tantas, o jogo foi adicionado ao catálogo de retrocompatibilidade da
Sony, então a minha ideia passou a ser conferir essa versão ao invés, e, da
mesma forma, posteriormente encarar os dois
Blood Omen disponíveis no catálogo. Antes de qualquer
oportunidade surgir, a Crystal Dynamics surpreendeu com o anúncio de
Defiance Remastered. A convite do portal PSX Brasil, do qual sou parceiro desde o início,
aceitei a proposta de escrever uma análise para a remasterização, mesmo que nunca tivesse
jogado o original até então.
Como Defiance estava instalado em meu computador,
pensei que seria interessante conferir a versão de 2003 para combinar tudo
em uma única postagem aqui no blog. Tudo dito e feito, por mais óbvio que isso
seja, é válido dizer que a remasterização é incrível e as novidades (em
especial, o novo sistema de câmera) tornam a experiência infinitamente
melhor. A versão definitiva, de fato.
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As diferenças são ainda maiores e mais notáveis do que eu
havia pensado de início. Existem diversas áreas e passagens que são bloqueadas
na versão original, os menus internos foram reconstruídos, e sem controle de câmera o jogo oferecia um ponto de vista imóvel — em minha opinião, inútil —, em primeira pessoa, ao toque de um botão. Para conseguir usar meu controle de Xbox 360, tive até mesmo que baixar um
software externo (AntiMicroX), pois as configurações internas
não oferecem suporte adequado e não é o tipo de jogo que funciona bem com
teclado e mouse.
A remasterização, além de incontáveis telas repletas de textos descritivos e detalhados sobre história, universo, e personagens do jogo, também introduz uma "habilidade" chamada de premonição. Quando acionada, ela aponta a direção de seu próximo objetivo. Estamos velhos e não temos mais o tempo e a paciência que tínhamos gerações atrás, e senti falta desse recurso, especialmente por conta das câmeras fixas: é comum ficar desnorteado subitamente, entre uma troca de ângulo e outra.
Aproveitando esse pretexto e migrando para um assunto mais pertinente ao blog
Raider Daze, obviamente eu tenho novas teorias (talvez "sonhos" seja a palavra correta) de como a
mera existência dessa remasterização impacta potenciais novos projetos
similares para a franquia Tomb Raider.
Contornando termos de confidencialidade, membros da Saber haviam dado a
entender que não estavam trabalhando na trilogia Legend, e então a comunidade passou a suspeitar que talvez a própria Crystal
desenvolveria o tal "L-A-U Remastered". Porém, com o anúncio de
Legacy of Atlantis, que pode ser grosseiramente descrito como um remake de
Anniversary, tudo parecia indicar que essa trilogia seria deixada de lado.
Entretanto, o estúdio responsável por Defiance Remastered é a
PlayEveryWare, o mesmo estúdio que fez o
port silencioso da Definitive Edition de TR2013 para
PC
(por algum motivo, ainda exclusivo da Microsoft Store), e boa parte da equipe é a mesma que trabalhou nos remasters anteriores da Saber.
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O quê coloca Defiance Remastered um patamar acima é sua curadoria complementar.
De maior destaque, certamente, é o fato que o jogo foi secretamente dublado em português brasileiro. As remasterizações de
Tomb Raider nos trouxeram menus e legendas em nosso idioma pela
primeira vez (exceto por Angel of Darkness,
cuja localização havia sido patrocinada pela GreenLeaf na época), mas imagine subitamente receber dublagens inéditas para jogos de 20 anos
atrás. Incrível.
Além disso, o jogo conta com muitos extras, como skins e "níveis perdidos". O
estúdio alega que encontrou diversos materiais perdidos nos arquivos da
Crystal e trataram de dar uma tapeada de forma a incluí-los no remaster como
um agrado aos fãs, e isso inclui, também, uma área que na época havia sido
projetada para uma continuação que nunca foi anunciada.
Ao invés de uma trilogia, meu cérebro agora favorece o conceito de lançamentos individuais,
começando por Legend Remastered ao invés. Pense que excelente
seria ter uma versão definitiva do jogo, com todos
os modos e trajes exclusivos da versão PSP, acesso a áreas de teste usadas no
primeiro trailer do jogo, localização integral em nosso idioma, um Photo Mode, e, quem sabe, ainda mais
extras inéditos.
Posteriormente, o mesmo poderia se aplicar aos outros dois jogos:
Anniversary, em escala menor (apesar de que este
também teve trajes exclusivos no PSP), e Underworld, que por si dispensa comentários, com a quantidade de melhorias que
poderiam ser aplicadas aos controles e câmera, mas, acima de tudo,
todos os DLCs exclusivos de Xbox 360 disponíveis em todas as
plataformas...
Em minha imensurável delusão, estou convencido que é uma mera questão de
tempo.
Abaixo, na íntegra e com a devida autorização, reproduzo a análise de
Legacy of Kain: Defiance Remastered que escrevi para o portal
PSX Brasil, com screenshots adicionais que capturei mas não usei no artigo original.
Próxima parada: Ascendance.
Após um longo período trancafiado nas profundezas dos calabouços da Crystal
Dynamics, a saga Legacy of Kain parece estar finalmente saindo das
sombras.
Pouco mais que um ano atrás, recebemos
Soul Reaver 1&2 Remastered, em uma empreitada conjunta da Saber Interactive e Aspyr Media, e os outros
três jogos da série (Blood Omen 1 e 2, e Defiance)
estavam disponíveis para PlayStation 4 e 5 através do catálogo de PlayStation
Classics. Defiance, inclusive, havia sido adicionado ao catálogo
recentemente,
em setembro do ano passado, e isso só aumentou o elemento surpresa quando essa nova remasterização foi
revelada.
Durante o último State of Play, Legacy of Kain: Defiance Remastered
foi anunciado
e, ainda por cima, com uma data de lançamento iminente, menos de um mês a
contar daquela data. Mas não se engane, não se trata de um trabalho rápido ou
caça-níqueis; muito pelo contrário, na verdade.
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Antes de entrar em detalhes sobre a remasterização, gostaria de oferecer um
breve contexto sobre o jogo original. Lançado em 2003 para PlayStation 2, este
é o capítulo final da saga do espectro Raziel em uma história elaborada e
repleta de narrativas que atravessam os tempos em sua busca por redenção ou
vingança contra seu antigo mestre, Kain. Não à toa, a sua escritora, Amy
Hennig, ainda considera a saga seu melhor trabalho, e arrisco dizer que é esse
lore profundo e envolvente que consolidou o status cult dos
jogos, mantendo uma base de fãs leais mesmo após todo esse tempo em
torpor.
Defiance reúne, pela primeira vez, os protagonistas Kain e Raziel em um
jogo mais linear, com uma estrutura similar ao então recente
Devil May Cry. Dividido em treze capítulos alternando entre os dois
personagens, cada qual com motivações e objetivos próprios, existem algumas
áreas mais abertas que incluem elementos de exploração, plataforma, e até
mesmo alguns enigmas — especialmente para Raziel, que ainda pode transitar
entre o plano material e o espectral —, mas o foco do jogo está evidentemente
em seu sistema de combate.
Nesse aspecto, a idade do jogo é visível. O sistema funciona no que se propõe,
mas é bem simples e com baixa variedade, tanto de combinações de ataques como
de inimigos, então infelizmente tende a cair na mesmice rapidamente. Apesar de
uma grande diversidade em cenários e ambientes, existe uma área em particular
(a cidadela vampírica, com seus corredores circulares) que é visitada com
frequência, e as mudanças no design para comportar os diferentes elementos ou
portais dimensionais são sutis demais para quebrar a impressão de “já estive
aqui e já fiz isso antes”.
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O que sustenta o jogo, com aproximadamente 12 horas de duração para uma
partida às cegas e sem conhecimento prévio, sem dúvidas, é sua narrativa, mas
arrisco dizer que requer um engajamento por parte do jogador, e uma
familiaridade com os jogos anteriores certamente resultará em um melhor
aproveitamento da história conforme ela se desdobra.
O jogo original usava um sistema de câmeras panorâmicas fixas, em ângulos
“cinematográficos”, digamos, e esse é um aspecto que foi alvo de críticas na
época pois acabava criando uma camada artificial de dificuldade, seja por
inimigos fora do campo de visão ou pelas abruptas mudanças da direção em que
você estava deslocando o personagem.
Entre as diversas novidades implementadas na remasterização está um novo e
livre sistema de câmera, que por padrão segue o personagem em qualquer
direção. Assim como tudo, é opcional — e com um simples pressionar de botão,
você pode alternar entre a câmera clássica e a moderna —, mas é difícil de
voltar para a visão original tendo experienciado a liberdade e a facilidade
que a nova alternativa propõe.
Desta vez sob tutela do estúdio PlayEveryWare, a premissa inicial é
basicamente a mesma dos trabalhos recentes da Saber e Aspyr. Aliás, cabe notar
que diversos desenvolvedores que trabalharam em
Soul Reaver 1&2 Remastered e, também,
Tomb Raider I-VI Remastered são citados nos créditos. Ou seja, a
fundação do jogo permanece inalterada, mas, além da já citada câmera, espere
por texturas de alta definição, modelos de personagens e de entidades
reconstruídos, e melhorias nos sistemas de iluminação. E o melhor, é tudo
opcional, sendo possível alternar para os recursos originais com um simples
apertar de botão, assim preservando acesso aos clássicos de outrora por mais
algumas gerações.
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Mas espere, isso não é tudo.
O motivo pelo qual eu suspeito que esse projeto ficou mais tempo no forno do
que a gente imagina é simples: ele é oferecido, pela primeira vez, com
localização integral em português brasileiro! Ao contrário do primeiro
Soul Reaver, que havia recebido dublagem através de uma iniciativa da
publisher nacional dos jogos para computador no início dos anos 2000, e
que foi posteriormente resgatada para a remasterização, Defiance jamais
contou com qualquer suporte do tipo, e, acertadamente, foi um ponto que não
passou despercebido pelos fãs brasileiros quando a remasterização foi
anunciada.
O estúdio responsável pela localização é o Rockets Audio Brasil, e embora o
elenco não seja o mesmo que havia dublado Soul Reaver duas décadas
atrás, os novos intérpretes não deixam a desejar e transmitem bem a
sofisticada eloquência dos vampiros. Ademais, o jogo permite combinar legendas
em português com o áudio original, que conta com vozes e performances
impecáveis de Michael Bell e Simon Templeman, dubladores originais de Raziel e
Kain, respectivamente.
Curiosamente, porém, embora a dublagem não apresente falhas, a quantidade de
problemas nos textos beira o absurdo. Menus com algumas opções em espanhol ou
caracteres cirílicos, seções inteiras de telas internas — principalmente as de
teor enciclopédico, que não são poucas — com o texto intocado em inglês,
legendas fora de sincronia, ícones ou descrições invertidas para identificar
botões… Enfim, considerando o escopo do projeto, e também o que já vimos com
jogos anteriores, tratam-se de problemas facilmente corrigíveis através de uma
atualização de versão que, nos dias atuais, é uma prática rotineira.
Outro aspecto muito bacana da remasterização é a curadoria de extras. Sem
dúvidas, é um deleite para os fãs, incluindo trilha sonora, incontáveis artes
conceituais, vídeos de produção, bastidores das gravações originais, skins
extras para os personagens jogáveis, e uma coletânea de “Fases Perdidas”: na
verdade, pequenas e simples áreas de teste, sem qualquer elemento de gameplay,
e algumas delas simplesmente reciclam a arquitetura de forjas da Ceifadora
existentes nos jogos anteriores.
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Entretanto, a outra face da moeda também se apresenta nessa curadoria. Por
algum motivo, alguns extras estão restritos à Edição Deluxe do jogo, entre as
quais está o chamado “protótipo” de The Dark Prophecy. É uma ideia
descartada para um sexto jogo da série, que foi cancelado antes de sequer ser
anunciado, mas, na prática, é apenas mais uma “Fase Perdida”, com menos de 5
minutos de duração e que reusa exatamente as mesmas mecânicas e criaturas de
Defiance. Além disso, três histórias em quadrinhos também foram
adaptadas para facilitar a leitura no console, uma das quais é em alemão mas
que conta com legendas em inglês (e, em tempo, nenhum dos extras possui
legendas em português).
Legacy of Kain: Defiance Remastered é uma excelente adição ao crescente
rol de restaurações de jogos de outrora, e as novidades, em especial no
sistema de câmera, ajudam a torná-lo uma experiência ainda mais agradável,
tanto para fãs de longa data quanto para potenciais novos jogadores
ingressando nesse universo.































