terça-feira, 17 de março de 2026

Pensamentos pós Legacy of Kain: Defiance

O mundo não gira, ele capota.
 
Há 20 anos eu fiz, para mim mesmo, a promessa que iria conferir os jogos da série Legacy of Kain, e, aos poucos, finalmente estou progredindo — ano passado, alguns meses após eu finalizar Soul Reaver 1&2 Remastered, a Amazon Prime ofereceu Defiance em seu programa de jogos gratuitos. Resgatei sem pestanejar, mas entre a falta de tempo, de energia, ou de interesse, ficou em segundo plano.
 
Lá pelas tantas, o jogo foi adicionado ao catálogo de retrocompatibilidade da Sony, então a minha ideia passou a ser conferir essa versão ao invés, e, da mesma forma, posteriormente encarar os dois Blood Omen disponíveis no catálogo. Antes de qualquer oportunidade surgir, a Crystal Dynamics surpreendeu com o anúncio de Defiance Remastered. A convite do portal PSX Brasil, do qual sou parceiro desde o início, aceitei a proposta de escrever uma análise para a remasterização, mesmo que nunca tivesse jogado o original até então.

Como Defiance estava instalado em meu computador, pensei que seria interessante conferir a versão de 2003 para combinar tudo em uma única postagem aqui no blog. Tudo dito e feito, por mais óbvio que isso seja, é válido dizer que a remasterização é incrível e as novidades (em especial, o novo sistema de câmera) tornam a experiência infinitamente melhor. A versão definitiva, de fato.
 
 
As diferenças são ainda maiores e mais notáveis do que eu havia pensado de início. Existem diversas áreas e passagens que são bloqueadas na versão original, os menus internos foram reconstruídos, e sem controle de câmera o jogo oferecia um ponto de vista imóvel — em minha opinião, inútil —, em primeira pessoa, ao toque de um botão. Para conseguir usar meu controle de Xbox 360, tive até mesmo que baixar um software externo (AntiMicroX), pois as configurações internas não oferecem suporte adequado e não é o tipo de jogo que funciona bem com teclado e mouse. 
 
A remasterização, além de incontáveis telas repletas de textos descritivos e detalhados sobre história, universo, e personagens do jogo, também introduz uma "habilidade" chamada de premonição. Quando acionada, ela aponta a direção de seu próximo objetivo. Estamos velhos e não temos mais o tempo e a paciência que tínhamos gerações atrás, e senti falta desse recurso, especialmente por conta das câmeras fixas: é comum ficar desnorteado subitamente, entre uma troca de ângulo e outra.
 
Você sabia que 2026 marca o trigésimo aniversário da franquia Legacy of Kain? Pois é.
 
Aproveitando esse pretexto e migrando para um assunto mais pertinente ao blog Raider Daze, obviamente eu tenho novas teorias (talvez "sonhos" seja a palavra correta) de como a mera existência dessa remasterização impacta potenciais novos projetos similares para a franquia Tomb Raider.

Contornando termos de confidencialidade, membros da Saber haviam dado a entender que não estavam trabalhando na trilogia Legend, e então a comunidade passou a suspeitar que talvez a própria Crystal desenvolveria o tal "L-A-U Remastered". Porém, com o anúncio de Legacy of Atlantis, que pode ser grosseiramente descrito como um remake de Anniversary, tudo parecia indicar que essa trilogia seria deixada de lado.
 
Entretanto, o estúdio responsável por Defiance Remastered é a PlayEveryWare, o mesmo estúdio que fez o port silencioso da Definitive Edition de TR2013 para PC (por algum motivo, ainda exclusivo da Microsoft Store), e boa parte da equipe é a mesma que trabalhou nos remasters anteriores da Saber.
 
 
O quê coloca Defiance Remastered um patamar acima é sua curadoria complementar.
 
De maior destaque, certamente, é o fato que o jogo foi secretamente dublado em português brasileiro. As remasterizações de Tomb Raider nos trouxeram menus e legendas em nosso idioma pela primeira vez (exceto por Angel of Darkness, cuja localização havia sido patrocinada pela GreenLeaf na época), mas imagine subitamente receber dublagens inéditas para jogos de 20 anos atrás. Incrível.
 
Além disso, o jogo conta com muitos extras, como skins e "níveis perdidos". O estúdio alega que encontrou diversos materiais perdidos nos arquivos da Crystal e trataram de dar uma tapeada de forma a incluí-los no remaster como um agrado aos fãs, e isso inclui, também, uma área que na época havia sido projetada para uma continuação que nunca foi anunciada.
 
Ao invés de uma trilogia, meu cérebro agora favorece o conceito de lançamentos individuais, começando por Legend Remastered ao invés. Pense que excelente seria ter uma versão definitiva do jogo, com todos os modos e trajes exclusivos da versão PSP, acesso a áreas de teste usadas no primeiro trailer do jogo, localização integral em nosso idioma, um Photo Mode, e, quem sabe, ainda mais extras inéditos.

Posteriormente, o mesmo poderia se aplicar aos outros dois jogos: Anniversary, em escala menor (apesar de que este também teve trajes exclusivos no PSP), e Underworld, que por si dispensa comentários, com a quantidade de melhorias que poderiam ser aplicadas aos controles e câmera, mas, acima de tudo, todos os DLCs exclusivos de Xbox 360 disponíveis em todas as plataformas...

Em minha imensurável delusão, estou convencido que é uma mera questão de tempo. 

Abaixo, na íntegra e com a devida autorização, reproduzo a análise de Legacy of Kain: Defiance Remastered que escrevi para o portal PSX Brasil, com screenshots adicionais que capturei mas não usei no artigo original. Próxima parada: Ascendance.


 

Após um longo período trancafiado nas profundezas dos calabouços da Crystal Dynamics, a saga Legacy of Kain parece estar finalmente saindo das sombras.
 
Pouco mais que um ano atrás, recebemos Soul Reaver 1&2 Remastered, em uma empreitada conjunta da Saber Interactive e Aspyr Media, e os outros três jogos da série (Blood Omen 1 e 2, e Defiance) estavam disponíveis para PlayStation 4 e 5 através do catálogo de PlayStation Classics. Defiance, inclusive, havia sido adicionado ao catálogo recentemente, em setembro do ano passado, e isso só aumentou o elemento surpresa quando essa nova remasterização foi revelada.
 
Durante o último State of Play, Legacy of Kain: Defiance Remastered foi anunciado e, ainda por cima, com uma data de lançamento iminente, menos de um mês a contar daquela data. Mas não se engane, não se trata de um trabalho rápido ou caça-níqueis; muito pelo contrário, na verdade.


Antes de entrar em detalhes sobre a remasterização, gostaria de oferecer um breve contexto sobre o jogo original. Lançado em 2003 para PlayStation 2, este é o capítulo final da saga do espectro Raziel em uma história elaborada e repleta de narrativas que atravessam os tempos em sua busca por redenção ou vingança contra seu antigo mestre, Kain. Não à toa, a sua escritora, Amy Hennig, ainda considera a saga seu melhor trabalho, e arrisco dizer que é esse lore profundo e envolvente que consolidou o status cult dos jogos, mantendo uma base de fãs leais mesmo após todo esse tempo em torpor. 

Defiance reúne, pela primeira vez, os protagonistas Kain e Raziel em um jogo mais linear, com uma estrutura similar ao então recente Devil May Cry. Dividido em treze capítulos alternando entre os dois personagens, cada qual com motivações e objetivos próprios, existem algumas áreas mais abertas que incluem elementos de exploração, plataforma, e até mesmo alguns enigmas — especialmente para Raziel, que ainda pode transitar entre o plano material e o espectral —, mas o foco do jogo está evidentemente em seu sistema de combate.

Nesse aspecto, a idade do jogo é visível. O sistema funciona no que se propõe, mas é bem simples e com baixa variedade, tanto de combinações de ataques como de inimigos, então infelizmente tende a cair na mesmice rapidamente. Apesar de uma grande diversidade em cenários e ambientes, existe uma área em particular (a cidadela vampírica, com seus corredores circulares) que é visitada com frequência, e as mudanças no design para comportar os diferentes elementos ou portais dimensionais são sutis demais para quebrar a impressão de “já estive aqui e já fiz isso antes”.


O que sustenta o jogo, com aproximadamente 12 horas de duração para uma partida às cegas e sem conhecimento prévio, sem dúvidas, é sua narrativa, mas arrisco dizer que requer um engajamento por parte do jogador, e uma familiaridade com os jogos anteriores certamente resultará em um melhor aproveitamento da história conforme ela se desdobra.
 
O jogo original usava um sistema de câmeras panorâmicas fixas, em ângulos “cinematográficos”, digamos, e esse é um aspecto que foi alvo de críticas na época pois acabava criando uma camada artificial de dificuldade, seja por inimigos fora do campo de visão ou pelas abruptas mudanças da direção em que você estava deslocando o personagem.

Entre as diversas novidades implementadas na remasterização está um novo e livre sistema de câmera, que por padrão segue o personagem em qualquer direção. Assim como tudo, é opcional — e com um simples pressionar de botão, você pode alternar entre a câmera clássica e a moderna —, mas é difícil de voltar para a visão original tendo experienciado a liberdade e a facilidade que a nova alternativa propõe.

Desta vez sob tutela do estúdio PlayEveryWare, a premissa inicial é basicamente a mesma dos trabalhos recentes da Saber e Aspyr. Aliás, cabe notar que diversos desenvolvedores que trabalharam em Soul Reaver 1&2 Remastered e, também, Tomb Raider I-VI Remastered são citados nos créditos. Ou seja, a fundação do jogo permanece inalterada, mas, além da já citada câmera, espere por texturas de alta definição, modelos de personagens e de entidades reconstruídos, e melhorias nos sistemas de iluminação. E o melhor, é tudo opcional, sendo possível alternar para os recursos originais com um simples apertar de botão, assim preservando acesso aos clássicos de outrora por mais algumas gerações.


Mas espere, isso não é tudo.

O motivo pelo qual eu suspeito que esse projeto ficou mais tempo no forno do que a gente imagina é simples: ele é oferecido, pela primeira vez, com localização integral em português brasileiro! Ao contrário do primeiro Soul Reaver, que havia recebido dublagem através de uma iniciativa da publisher nacional dos jogos para computador no início dos anos 2000, e que foi posteriormente resgatada para a remasterização, Defiance jamais contou com qualquer suporte do tipo, e, acertadamente, foi um ponto que não passou despercebido pelos fãs brasileiros quando a remasterização foi anunciada.
 
O estúdio responsável pela localização é o Rockets Audio Brasil, e embora o elenco não seja o mesmo que havia dublado Soul Reaver duas décadas atrás, os novos intérpretes não deixam a desejar e transmitem bem a sofisticada eloquência dos vampiros. Ademais, o jogo permite combinar legendas em português com o áudio original, que conta com vozes e performances impecáveis de Michael Bell e Simon Templeman, dubladores originais de Raziel e Kain, respectivamente.
 
Curiosamente, porém, embora a dublagem não apresente falhas, a quantidade de problemas nos textos beira o absurdo. Menus com algumas opções em espanhol ou caracteres cirílicos, seções inteiras de telas internas — principalmente as de teor enciclopédico, que não são poucas — com o texto intocado em inglês, legendas fora de sincronia, ícones ou descrições invertidas para identificar botões… Enfim, considerando o escopo do projeto, e também o que já vimos com jogos anteriores, tratam-se de problemas facilmente corrigíveis através de uma atualização de versão que, nos dias atuais, é uma prática rotineira. 

Outro aspecto muito bacana da remasterização é a curadoria de extras. Sem dúvidas, é um deleite para os fãs, incluindo trilha sonora, incontáveis artes conceituais, vídeos de produção, bastidores das gravações originais, skins extras para os personagens jogáveis, e uma coletânea de “Fases Perdidas”: na verdade, pequenas e simples áreas de teste, sem qualquer elemento de gameplay, e algumas delas simplesmente reciclam a arquitetura de forjas da Ceifadora existentes nos jogos anteriores.


Entretanto, a outra face da moeda também se apresenta nessa curadoria. Por algum motivo, alguns extras estão restritos à Edição Deluxe do jogo, entre as quais está o chamado “protótipo” de The Dark Prophecy. É uma ideia descartada para um sexto jogo da série, que foi cancelado antes de sequer ser anunciado, mas, na prática, é apenas mais uma “Fase Perdida”, com menos de 5 minutos de duração e que reusa exatamente as mesmas mecânicas e criaturas de Defiance. Além disso, três histórias em quadrinhos também foram adaptadas para facilitar a leitura no console, uma das quais é em alemão mas que conta com legendas em inglês (e, em tempo, nenhum dos extras possui legendas em português). 
 
Legacy of Kain: Defiance Remastered é uma excelente adição ao crescente rol de restaurações de jogos de outrora, e as novidades, em especial no sistema de câmera, ajudam a torná-lo uma experiência ainda mais agradável, tanto para fãs de longa data quanto para potenciais novos jogadores ingressando nesse universo.