quinta-feira, 2 de abril de 2026

Pensamentos pós Legacy of Kain: Ascendance

Escrevi a análise abaixo para o portal PSX Brasil, aqui replicada com autorização.

Vale notar que esse jogo foi desenvolvido pela Bit Bot Media, então tecnicamente não se enquadra no marcador softografia pois tal estúdio nunca trabalhou com a série Tomb Raider. Dito isso, como trata-se de Legacy of Kain e estou (aos poucos) me aventurando nesse universo, julguei pertinente trazer esse conteúdo ao blog Raider Daze.


 
Há exatas quatro semanas, recebemos a excelente remasterização de Legacy of Kain: Defiance. Até então, era o último jogo da franquia e que havia sido lançado originalmente em 2003, ainda para o PlayStation 2. O anúncio da remasterização veio acompanhado de uma discreta citação a Legacy of Kain: Ascendance, que seria lançado mais tarde mas dentro do mesmo mês.

Desde então, a reação da comunidade foi mista quando as informações iniciais foram divulgadas: embora trouxesse os protagonistas já estabelecidos, Kain e Raziel, o jogo traria Elaleth como uma personagem jogável. Elaleth havia sido recentemente introduzida ao universo de Nosgoth através da história em quadrinhos The Dead Shall Rise, que surgiu de uma campanha de financiamento coletivo muito bem sucedida financeiramente mas que, infelizmente, não desfrutou de uma boa recepção entre os fãs e apoiadores do projeto.

A mesma equipe criativa por trás da história em quadrinhos está diretamente envolvida na produção de Ascendance que, em grande parte, transforma a história em um jogo minimalista de progressão lateral.



De forma resumida, Ascendance oferece um vislumbre na vida humana de Raziel, desde sua infância até sua morte e renascimento com os dons sombrios que recebeu de Kain. Entretanto, a narrativa é apresentada, na maior parte do tempo, do ponto de vista de Elaleth, irmã mais nova do garoto Raziel e que, até então, nunca havia sido citada anteriormente.

As motivações de Elaleth são bem superficiais. Não bastasse o elo familiar, a história também se apoia no padrão narrativo de amor perdido. Quando eram jovens adultos, Raziel e Elaleth testemunharam a invasão vampírica coordenada por Kain. Uma criatura contaminou Mathias, o amor de Elaleth, e ela, tentando mantê-lo vivo durante a transformação, cortou a própria mão para alimentá-lo com sangue. Raziel, sem entender o que acontecia, reagiu impulsivamente e decapitou o amigo e decepou a mão de sua irmã, torcendo para que isso impedisse que ela também se tornasse uma criatura da noite.

A partir daquele momento, Elaleth passou a ser motivada apenas por vingança contra o irmão por ter tirado a vida de seu amor. Todos os acontecimentos na vida dos dois eram observados por um corvo, um servo de um demônio que vê ali uma oportunidade de ter sua própria alma resgatada pela jovem. Ele usa magia para conceder a ela dons vampíricos, inclusive asas, e um amuleto que retém não apenas suas memórias humanas, mas permite que ele esteja em constante contato com ela enquanto a manda em missões em diferentes épocas, sempre com uma ou outra restrição.



Curiosamente, é justamente esse amuleto que faz com que Raziel seja o primeiro dos generais de Kain a ascender a patamares mais altos, o que resultou em sua condenação imediata ao abismo, no início de Legacy of Kain: Soul Reaver, onde ficou séculos até que fosse ressuscitado como um espectro (e suas memórias ficaram retidas, mas perdidas, no amuleto que ficou com sua irmã).

O jogo segue Elaleth, em busca de um paradoxo temporal para salvar seu amado, ao mesmo tempo em que alterna para alguns capítulos com Raziel, de início um guerreiro humano e mais tarde um vampiro, e outros com Kain, sempre mantendo o ritmo da história centrado em Elaleth, que foi retroativamente inserida em elementos-chave do cânone sem impactos diretos no mesmo. Tratar o jogo como um spin-off talvez seja a melhor forma para aproveitá-lo pelo que ele é, e não pelo que ele deixa de ser.

A Bit Bot Media é um estúdio minúsculo, então o estilo de jogo minimalista não chega a ser surpresa. O estilo gráfico retrô definitivamente não agradará a todos, mas o trabalho em pixel art remete diretamente aos jogos da geração 8-bits. Artes em alta definição são usadas para ilustrar os diálogos, e existem dois tipos de animações, uma feita usando modelos tridimensionais com baixa contagem de polígonos (que, por sua vez, lembram o estilo adotado por jogos de Nintendo DS), e outra, reservada para o final, que segue uma estética mais tradicional de animação cartunesca ocidental — honestamente, eu preferiria que houvessem mais como essa última.



A performance dos atores na dublagem dos diálogos permanece impecável, mas, ao contrário de Defiance Remastered, dessa vez não há localização integral em português brasileiro. Legendas e interfaces estão disponíveis em nosso idioma, porém, embora com alguns pequenos deslizes aqui e ali que não comprometem o entendimento.

O ponto mais crítico de Ascendance, porém, é a jogabilidade, que é bem simples e pouco evolui no decorrer de seus 12 capítulos. Julgar pelas imagens ou trailers pode sugerir um jogo similar a um Castlevania das antigas, mas na verdade é um jogo de progressão bem linear, com pitadas de exploração paralela em busca de colecionáveis ou expansões para as barras de vida ou de poder.

Todos os personagens jogáveis funcionam de forma bem similar, com mudanças bem pequenas entre si — Kain possui sua clássica forma de névoa para atravessar portões, por exemplo, ao passo que Elaleth e Raziel podem voar com suas asas —, mas a simplicidade do jogo fica evidente durante os incessantes combates. Para todos os personagens, a variedade é minúscula e a técnica mais avançada é a aparada (parry).



Entendo que os jogos anteriores não eram exatamente referência nesse sentido, mas, nesse jogo em particular, a sensação de mesmice e repetição vem muito antes do normal. Isso só não é um problema maior pois é um jogo extremamente curto, com duração de aproximadamente quatro horas, e sem nenhum modo de jogo extra além da campanha. Além disso, o jogo carece de um botão para saltar animações para o modo de seleção de capítulos, quando você parte atrás de pergaminhos que tenham ficado para trás.

Além das mudanças no gênero de jogo e da equipe criativa, Legacy of Kain: Ascendance ainda esbarra em uma barreira inicial adicional por conta da fraca recepção da história em quadrinhos na qual o jogo é baseado. A forma como o jogo é desenvolvido sugere que, no futuro, Elaleth poderia seguir uma jornada paralela e independente dos jogos anteriores, sem afetá-los de forma alguma, mas, em um mundo regido por dinheiro, isso — ou qualquer outra iniciativa envolvendo a franquia — certamente dependerá da performance comercial do jogo.