Escrevi o artigo abaixo para o portal
PSX Brasil, como parte da coluna especial Top X, aqui replicado com autorização (e
engenhosamente encaixado em minhas postagens para os 30 anos de
Tomb Raider pois, sim, estou ficando sem ideias de como manter a periodicidade quinzenal que estipulei para mim mesmo!).
Ranquear os diferentes jogos da franquia Tomb Raider não é uma tarefa simples.
Ao longo das últimas três décadas, vimos Lara Croft passar por muitos altos e
baixos enquanto a franquia tentava se adaptar às mudanças da indústria. Desta
forma, com no mínimo três continuidades distintas (e uma quarta a caminho), é
seguro dizer que cada fã da série terá um top 10 pessoal e intransferível.
Dado o desafio de colaborar com essa nova coluna do portal PSX Brasil,
apresento (e justifico) a seguir a forma como eu classificaria os jogos hoje.
Gostaria apenas de destacar que eu acompanho a trajetória da saqueadora de
tumbas religiosamente desde o início de 1998, pouco após o lançamento de TR2,
e, mesmo assim, sempre encontro novos motivos para amar ainda mais os jogos a
cada nova maratona.
Vamos lá.
Underworld marcou a estreia da franquia na era do PlayStation 3, introduziu
captura de movimentos, e encerrou a primeira trilogia da Crystal Dynamics
colocando Lara Croft em busca da Mjölnir, do deus nórdico Thor. Infelizmente,
nem todas as mudanças foram para melhor, especialmente considerando-se que em
2008, quando foi lançado, alternativas como Uncharted e Assassin's Creed já
estavam se estabelecendo no mercado. Apesar da controvérsia de DLCs exclusivos
para a plataforma concorrente, Underworld encerrou o arco iniciado por Legend
de forma satisfatória. (Nota: fique longe da versão para PlayStation 2!)
9. Tomb Raider: The Last Revelation (1999)
Mesmo sob a pressão de lançamentos anuais, o quarto jogo da série tentou se
reinventar, trazendo uma experiência mais focada em exploração e narrativa do
que os jogos anteriores, retroativamente inserindo um mentor no passado da
garota apenas para transformá-lo num antagonista. O resultado é um jogo
robusto, quase que integralmente ambientado no Egito, onde Lara corre contra o
tempo para aprisionar o deus Seth. A equipe de desenvolvedores da Core Design
criou um final inesperado para o jogo, em uma tentativa de se libertar do
ciclo anual imposto pela Eidos, mas não fez diferença alguma para a publisher.
8. Lara Croft Go (2015)
Apesar de não carregarem o nome da franquia no título, os spin-offs da série
são dignos de atenção. Lara Croft Go é o segundo título de uma trilogia de
jogos de puzzle por turnos desenvolvidos pela Square Enix Montréal. Foi
lançado originalmente para smartphones mas posteriormente recebeu um merecido
port para PS4 e Vita ("Vita significa Vida"). Arrastar pilares, escapar de
pedregulhos rolantes, deduzir a ordem certa para cada passo — curiosamente,
tudo funciona muito bem sob essa perspectiva única, combinado com um belo
estilo artístico e uma trilha sonora encantadora.
7. Tomb Raider II (1997)
Após o absurdo sucesso do primeiro jogo, a Core Design tratou de providenciar
uma continuação para o ano seguinte. Em busca da adaga de Xian, Lara Croft
visita lugares como a Muralha da China, os canais de Veneza, e monastérios nas
montanhas do Tibete, enquanto enfrenta a máfia italiana em uma corrida pelo
tesouro. Por uma tendência de mercado na época, existe um foco muito maior em
tiroteios que o jogo anterior, e mesmo naufrágios no fundo do mar estão
tomados por mercenários armados dentro de salas trancadas, mas o jogo retém
boa parte da essência que tornou o primeiro jogo um clássico instantâneo.
6. Tomb Raider: Legend (2006)
Dez anos após a estreia da franquia, Legend, o primeiro título da franquia
agora sob tutela da Crystal Dynamics, chegou ao mercado com um desafio enorme
a sua frente. Não apenas precisava honrar o legado da aventureira, mas também
precisava fazer com que ela reconquistasse o público após o desastroso Angel
of Darkness (de 2003). Com uma repaginada no visual e jogabilidade, finalmente
colocando o jogo no mesmo patamar que demais jogos disponíveis na época,
Legend foi um necessário e bem-vindo sopro de vida para a franquia em seu
momento mais crítico. A narrativa do jogo traz como chamariz nada menos que a
lendária Excalibur.
5. Tomb Raider (2013)
A jogabilidade antiga, com sistema de mira automático, parecia não ter mais
lugar na geração PS3, e simplesmente substituí-la tornaria uma possível
continuação para Underworld parecida demais com os outros jogos no mercado. A
solução que a Crystal Dynamics encontrou foi um reboot completo, colocando
Lara Croft de volta à estaca zero. Uma estudante jovem e inexperiente que se
vê forçada a lutar pela própria sobrevivência, recolhendo recursos e
improvisando armamentos encontrados na ilha de Yamatai, enquanto prova ser uma
verdadeira mestre de combate e matança ao enfrentar hordas e mais hordas de
cultistas ensandecidos (pois, novamente, era o que os jogos populares na época
faziam, e, claro, este aqui também segue aquela mesma estética marrom/monótona
que marcou a geração).
4. Rise of the Tomb Raider (2015)
Dois anos após o reboot, a primeira continuação chegou — e, numa manobra
catastrófica da Square Enix, com exclusividade temporária para a plataforma
concorrente… Águas passadas não movem moinhos. Em Rise, Lara se vê
descreditada sobre os eventos que testemunhou em Yamatai e parte em busca de
evidências tangíveis da imortalidade na gelidez da Sibéria. Usando a estrutura
do reboot como fundação, o jogo insere áreas mais densas e aprofunda as
mecânicas internas. A densidade dos ambientes significa ainda mais encontros
com inimigos armados, e nossa garota dizima (parte de) uma ordem paramilitar
que se identifica como Trinity.
3. Shadow of the Tomb Raider (2018)
Enquanto a Crystal Dynamics trabalhava no amaldiçoado Marvel's Avengers (que
tinha alguns méritos, apesar de tudo), a terceira parte da saga Survivor foi
desenvolvida pela Eidos Montréal. Apesar do resultado dividir opiniões, eu
pessoalmente o considero o melhor dessa trilogia por conta de seus ambientes,
em busca da cidade (não tão) perdida de Paititi na Amazônia peruana, uma leve
mudança no foco (enquanto Rise usava qualquer desculpa para empurrar um
inimigo armado na sua cara, Shadow faz isso com menos frequência), oferecendo
momentos de maior introspecção enquanto você navega e caça recursos, e, claro,
tumbas impressionantes. É uma pena que as melhores são vendidas separadamente,
mas esse é o mundo em que vivemos. Dito isso, admito que a história não foi
tão bem desenvolvida quanto os refinamentos na jogabilidade.
2. Tomb Raider: Anniversary (2007)
Descrever Anniversary como um remake é quase que um sacrilégio para um grupo
específico de fãs, pois o jogo descartou muitos elementos e ambientes do jogo
original e inseriu retroativamente a narrativa e continuidade iniciada por
Legend, que havia sido lançado um ano antes. Apesar disso, a reconstrução dos
cenários não deixa a desejar e transparece muito bem tanto a escala quanto
aquele fascinante aspecto de mundos perdidos. Acrescente a isso a fluidez e
mobilidade de Legend e você tem um jogo que sustenta muito bem por si,
obrigado.
1. Tomb Raider (1996)
O topo é, sempre foi e provavelmente sempre será, do título de estreia da
franquia. Tomb Raider não se tornou um clássico sem motivo, e Lara Croft com
certeza fez sua parte, mas o jogo realmente se destacou por sua premissa quase
que singular para a época. Um dos pioneiros na transição de jogos em 2D para
3D, o jogo trazia cenários impressionantes que você podia explorar livremente
com um igualmente expansivo repertório de movimentos para isso. O ritmo mais
sereno da exploração era interrompido ocasionalmente por encontros com animais
selvagens ou enigmas simples aqui e ali. Quem teve o privilégio de jogar na
época se encontrou imerso em uma incrível jornada por uma variedade de
ambientes no Peru, Grécia, Egito, e até mesmo uma interpretação única do que
restou de Atlântida. É justamente a simplicidade da época que torna esse jogo
tão especial, sem falar que todos os elementos fundamentais estão aqui.
Agora, se você não tem paciência para encarar o jogo original, ou sua
excelente
versão remasterizada
lançada em 2024, em alguns poucos meses teremos uma nova reinterpretação desse
clássico, agora sob responsabilidade do estúdio polonês Flying Wild Hog. Pelo
que já vimos até agora, muito provavelmente
Legacy of Atlantis
também receberia uma posição de destaque em meu Top X.