Um assunto que tomou proporções inesperadas na semana passada foi o aviso de
que Legacy of Atlantis faz uso de inteligência artificial
generativa em sua produção, conforme informado pela listagem do jogo na Steam:
Ferramentas assistidas por inteligência artificial foram usadas no desenvolvimento para apoiar algumas ideias iniciais e conteúdo em desenvolvimento temporário. Quaisquer recursos assistidos por IA foram substituídos ou refinados por humanos para manter a visão criativa e artística da equipe de desenvolvimento.Não apenas a esfera de fãs de Tomb Raider, mas a comunidade gamer de forma geral reagiu a essa informação de forma muito mal — mas não tiro-lhes a razão, e vou tentar descrever em palavras o que eu penso sobre essa situação. Não estou tentando formar sua opinião, e nem determinar o que é certo ou errado, apenas sinto a necessidade de expressar meu posicionamento para os poucos leitores que chegam até aqui.
Antes de mais tudo, vale relembrar que a Steam inclui essa nota de esclarecimento nas listagens
dos jogos pois, em tempos recentes, todas formas de entretenimento
foram completamente dominadas por conteúdo gerado por inteligência artificial
(doravante genAI, "generative artificial inteligence").
Não apenas os stories
bobinhos que chegam até você através de seus amigos e familiares, mas a genAI
já domina cartazes publicitários; trabalhos acadêmicos; livros publicados e listados em lojas online; vídeos
de canais monetizados incluindo capa, roteiro, artes e animações, por vezes
até a narração; e, no que diz respeito a jogos eletrônicos, recusos que vão
desde artes conceituais até geração de modelos, texturas, e código-fonte.
O que de início parecia algo bobinho como forma de descontração
rapidamente se disseminou e tomou proporções absurdas na internet. Pessoas sem talento
exigindo "crédito" por terem digitado na linha de comando uma descrição de
imagem para ser produzida em segundos via genAI e exigindo espaço e exposição
ao lado de artistas reais. Existem muitas coisas erradas em todo esse
processo.
Na parte ética, a genAI é "treinada" através de conteúdo real e produzido por
humanos. Então quando você requisita uma arte "no estilo de", por exemplo, ela
está literalmente roubando características de um artista consagrado, seja ele
vivo ou não. Homenagens feitas por artistas reais não causam o mesmo grau de
ofensa pois ainda exigem estudo, talento, e esforço para tomarem forma.
Na parte sócio-econômica, ela está literalmente eliminando empregos, tornando
o trabalho humano redundante. A IA por si é incapaz e incompetente, até o
presente momento, mas os sinais dessa mudança de paradigma são óbvios e
alarmantes. Enquanto essa bolha não estourar, é uma mera questão de tempo até
que a nossa vez de sermos completamente substituídos chegue.
E o
impacto ambiental
deveria ser muito mais divulgado. A quantidade de processamento contínuo usado
para que todas essa genAI funcionem, gerando todo o tipo de lixo que vemos à
torto e direito na internet (imagine a quantidade de usuários fazendo uso
dessas ferramentas nesse exato momento), não apenas gera uma escassez de
componentes para o usuário final, acarretando em aumentos abusivos de preços
dos eletrônicos, mas também consome grandes quantidades de recursos naturais,
pois dependem de eletricidade, por exemplo, além de emissões nocivas ao
meio-ambiente. Aceleramos a destruição de nosso planeta.
Além de tudo, também afeta a capacidade intelectual do humano. Diariamente
percebo, nas pessoas ao meu redor, que não existe mais um pensamento crítico.
Profissionais formados "consultando" o ChatGPT; estudantes pedindo trabalhos completos e formatados; "livros" sem qualquer teor real brotando em lojas
online; pessoas de todas idades compartilhando vídeos e imagens feitos por genAI como se fossem verdade absoluta — especialmente se a mensagem estiver de
acordo com sua ideologia política. A cada dia que passa, a raça humana fica
mas burra. O futuro, se existir, é absolutamente tenebroso.
E isso afeta até mesmo a forma que usamos a internet. O maior motor de buscas
progressivamente se tornou uma ferramenta insuportável: de início, passou a empurrar
resultados patrocinados que pouco (ou nada) tinham a ver com o assunto
buscado; depois passou a "espionar" seus dados e histórico para empurrar
conteúdo direcionado; e, agora, insiste em empurrar respostas automatizadas por IA.
Talvez eu esteja velho demais para esse mundo. A minha impressão é que, infelizmente, esse câncer já tomou conta total do ecossistema do
planeta. Resta aguardar pela metástase e pelo fim.
Qual a relação de genAI com Tomb Raider?
Na
apresentação de resultados do ano fiscal anterior, alguns dias antes da Steam divulgar a informação do uso de genAI, Phil
Rogers, CEO do Embracer Group, havia deixado claro que essa tecnologia estava
em constante uso, dizendo que é um "multiplicador poderoso quando usado por
experts".
Se por um lado automatizar processos repetitivos e monótonos parece uma
decisão um tanto quanto humana, especialmente se ela eliminar a necessidade de
horas extras para finalizar projetos dentro de prazos apertados, não sabemos
qual é a realidade dentro do estúdio. O próprio Phil diz que vivemos em uma era onde
"precisamos fazer mais com menos", o que pode implicar que existem um número menor de profissionais envolvidos e estão tentando cobrir as lacunas de forma automatizada. Ou
será que esquecemos das constantes ondas de demissões?
Os recentes I-III Remastered e
IV-VI Remastered foram criticados por fãs que detectaram o uso
de ferramentas de inteligência artificial para fazer texturas de maior
resolução em cima das originais. Aqui entra outro fator e do qual eu próprio
não posso me isentar: ferramentas de IA existem há decadas, e eu uso
algumas para fazer upscaling de imagens ou remover fundos para minhas
montagens, por exemplo. Ainda recorro ao Google Tools quando preciso traduzir frases ou palavras
de idiomas que não conheço, mas, de resto, prefiro consultar verbetes
individualmente em dicionários online. (De fato, estou velho demais para esse
mundo.)
Não posso afirmar que o impacto desse tipo de IA é menor ou maior, mas como não envolve a
geração de conteúdo, apenas a "aprimoração" do mesmo, entendo que não existe
uma questão ética envolvida. Aliás, isso me lembra quando inseriram diálogos
"inéditos" nas dublagens de Angel of Darkness
sem o consentimento das respectivas atrizes. Essa atitude fala por si, e fala muito. Não é difícil entender o
posicionamento contrário a genAI, em qualquer escala.
Uma das coisas que (justificavelmente) pegou muito mal, e fomentou essa
situação, foi quando Jeff Adams, diretor de experiência de LOA, comentou como o estúdio emprega o uso de genAI:
"Na Crystal Dynamics, vemos IA como uma ferramenta que pode ajudar nossa equipe a chegar às respostas certas mais rapidamente. Então, deixe me dar um exemplo. Digamos que, no início do desenvolvimento, temos uma ideia para um objeto, mas não temos certeza se queremos ou não alocar o tempo de desenvolvimento para criá-lo. Podemos usar uma ferramenta de IA generativa para ajudar a visualizarmos esse objeto no mundo. E se der certo, então transferimos para nosso processo tradicional. A partir daí, a equipe vai fazer o conceito, a construção, e asseguraremos que todo o conteúdo finalizado no jogo é criado por humanos."
Quando questionados o que exatamente é gerado pela IA e o que permanece no
jogo, alguém da equipe de relações públicas interrompeu a entrevista, por trás
das câmeras, dizendo que eles já falaram tudo o que tinham para falar sobre o
assunto. Uma manobra lamentável e que foi capturada em vídeo.
Enfim, não sabemos se as inúmeras ameaças de boicote surtirão algum efeito em
LOA, ou mesmo se essa controvérsia terá qualquer
tipo de consequência. Muito me parece uma situação que será esquecida
rapidamente pois, como eu disse acima, o mundo inteiro está enterrado nesse
monte — e aparentemente estamos todos felizes feito porcos na lama.
Apenas venha, meteoro.