quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Down Among the Dead

Que a Core Design e o jornal britânico The Times haviam feito uma parceria e lançado um nível bônus para The Last Revelation todo mundo sabe, afinal o nível é (devidamente) difundido em virtualmente todo lugar. Mas a colaboração foi muito além disso: na edição de 27 de novembro de 1999, o jornal trouxe um encarte especial dedicado à aventureira intitulado A Girl Called Lara.

Alguns colecionadores possuem uma cópia desse encarte, como é o caso das administradoras do portal Virtual Lara que compartilharam fotos de todas as suas páginas. De maior interesse, em minha opinião, é que entre o conteúdo promovido pelo jornal estava o conto Down Among the Dead. Talvez seja apenas uma fanfic vangloriada, mas é fato que foi publicada em caráter quase oficial.

A história foi dividida em sete capítulos e publicada periodicamente nas páginas do jornal. Esse é o tipo de conteúdo que, infelizmente, se perdeu para o tempo — temo que, a essa altura, já perdemos muito mais do que sequer imaginamos. A autora do texto, Erica Wagner, foi contatada pelas gerentes de comunidade da Crystal Dynamics em algum momento no passado mas, infelizmente, não tinha o artigo completo para compartilhar.

Com um pouco de esforço, encontrei um banco de dados com cópias arquivadas de jornais antigos. A pegada é que apenas parte dos textos pode ser acessada sem o login de uma universidade ou biblioteca associada à plataforma. Agradecimentos ao portal Tomb Raider Arabia por partilhar o mesmo nível de obsessão e resgatar na íntegra os dois capítulos que localizei; agora, somados aos dois que já haviam sido publicados pelo Virtual Lara, temos mais da metade da história.

Apesar de incompleto, decidi fazer uma tradução livre do conto para publicar e arquivar aqui no blog Raider Daze. Com sorte, algum dia conseguiremos os três capítulos faltantes...

[ * * * ]

Down Among the Dead
— I —

Lara fez a curva ao redor da esquina e – bem como havia suspeitado – o bandido estava esperando por ela. Ela sentiu a adrenalina acelerar até as raízes de seu cabelo enquanto ele avançava em direção à ela, praguejando, mas ela fintou, pegando o cano de chumbo que havia escondido em suas costas. Ela atacou com toda sua força, mas ele era rápido, também, e conseguiu esquivar-se a tempo; num piscar de olhos ela estava encarando o tambor de uma arma. Tudo ficou devagar: ela pôde ver o dedo dele pressionando o gatilho, e ouviu o disparo que ele fez, à queima-roupa, contra o peito dela.

"Mas que inferno," Lara resmungou, empurando o teclado do computador para o lado. Que porcaria eram esses jogos de computador. De qualquer forma, ela tinha coisas melhores para fazer. Em sua frente estava uma montanha de papeis, livros e arquivos – ela estava os separando, tentando decidir qual seria o assunto de seu próximo livro. Foi Fácil Para Scott: Uma Escapadela Antártica? Correndo por Bornéu? Nada parecia adequado. Ela se levantou e preparou para si uma xícara de café: olhando pela janela da cozinha para o jardim da casa estirado logo abaixo dela. As folhas estavam começando a mudar: as suas rosas adoradas haviam fechado e caído, adormecidas para mais um inverno. Nessa época ela sempre gostava de sair da Inglaterra, e não ficar sentada em sua mesa.

Bem, talvez existia uma maneira... Ela pegou a carta que havia deixado na mesa no dia anterior. A carta tinha sindo enviada – regular como um relógio, assim como em todos os outros anos – por seu padrinho Jeremy, o homem responsável por muitas de suas aventuras. Cada ano ele a levava em uma viagem, e o preço do bilhete era sempre o mesmo. Ela precisava resolver os enigmas preparados por ele, assim revelando o ponto de partida. Poderia ser em qualquer lugar do mundo e o desafio sempre era exigente.

Agora, o primeiro dos enigmas estava em sua frente: não era difícil para Lara encontrar o interesse, mas sua preocupação quanto ao seu próximo passo profissional ainda pairava sobre sua cabeça. Ela não era mais uma garota, afinal; e ela precisava de uma fonte de renda – ela curtia todo o lance de exploração de tumbas mas isso não seria suficiente para pagar a manutenção desse lugar. Ela suspirou e bebeu um gole do café, e enquanto voltava para sua mesa quase tropeçou em um livro que havia caído de uma pilha nada organizada. Tesouros do Museu de Cairo.

Ela se ajoelhou. Ela havia esquecido que possuía esse livro. Ela folheou suas páginas, com a pista de Jeremy ainda em sua mente: a conjunção de ambos era um toque de sorte do acaso. Enquanto ela observava imagens de pedra e ouro, de lazulita e alabastro, tudo fazia com que ela quase pudesse sentir a poeira e a energia do Egito. Ela fechou o livro rapidamente. Ela acabara de ter uma ideia.

* * *

A cópia original da carta não existia mais: o arquivista havia explicado para ela que uma vez que estivesse digitada, era desprezada. A carta havia aparecido no The Times em março de 1923. "A morte surge em asas para aquele que entra na tumba de um faraó," a novelista Marie Corelli lembrava aos leitores do jornal – ávidos por notícias do que seria revelado na recentemente aberta tumba do garoto-rei Tutancâmon. Ela dizia que essa advertência constava em um texto arábico em sua posse: mas de qualquer forma esse alerta teria passado despercebido se não fosse por Lorde Carnarvon, patrono do descobridor da tumba, Howard Carter, ter morrido poucos dias depois. A Maldição dos Faraós!

Que bobagem, Lara pensou enquanto examinava cuidadosamente as caixas que o arquivista havia deixado em sua frente. Em 1922, o The Times pagou cinco mil libras pela cobertura exclusiva da maior descoberta arqueológica do século. Notícias do Vale dos Reis chegavam "de estafetas até Luxor" naqueles dias: Lara suspirou um pouco, pensando como a vida antes de e-mails e modems talvez fosse mais emocionante. Com suas paredes de tijolos grossos e pequenas janelas gradeadas, o arquivo estava tão silencioso quanto uma tumba nessa tarde chuvosa de Londres.

Ela sabia que era atrevimento simplesmente aparecer assim. Para sua sorte seu tio, que ela não via há anos mas ignore isso, esteve em Oxford com o editor, lendo clássicos. Ela havia encontrado o editor algumas vezes e ele parecia agradável. Sentada em um sofá grande em seu escritório mal-iluminado e de teto baixo, ela teve a sensação que ele não sabia o que pensar sobre ela. Mesmo assim, ele havia deixado-a entrar no arquivo. Antes de sair, ela caminhou até as prateleiras e puxou um volume original em grego de Xenofonte que, ela percebeu, já pertencera ao "Serviço de Inteligência do The Times". Definitivamente, aqueles eram os bons tempos. Ela rapidamente leu o parágrafo de abertura em voz alta; o grego dela não estava tão enferrujado quanto ela pensava. Isso, de qualquer forma, fez ele sorrir.

A morte surge em asas para aquele que entra na tumba de um faraó. Ela sentou com um lápis entre seus dentes, pensando até onde tudo isso poderia levar ela. O arquivista esticou sua cabeça porta adentro. "Está tudo certo aí dentro?"

"Sim, tudo bem, obrigado," ela disse. "Esse é todo o material?" De alguma forma, maldição ou não, ela ainda não havia encontrado o que estava procurando.

"Acho que sim," ele disse. Ele parecia um rapaz bem educado, Lara pensou. Ele disse que era novo no emprego; estava ali há seis meses. Lara não teria aguentado ficar enfiada em escritórios empoeirados o tempo todo. Ele contou as caixas na frente dela. "Espere aí," ele disse. Ele foi até os fundos, e após alguns minutos retornou com outra caixa, menor do que as demais, feita de madeira e não de papelão. "Engraçado," ele disse, "achei que era parte desse lote." Havia uma pequena etiqueta na frente, cuidadosamente feita com tinta preta em escrita antiga: '1923' era tudo que dizia. "Eu não olhei dentro, entretanto." Ele se curvou e soprou a poeira da tampa. "Parece que ninguém fez isso, pelo menos não recentemente." Ele sorriu para ela. "Toda sua, então." Ele deixou a sala, fechando a porta atrás dele.

Cuidadosamente, Lara abriu a caixa, colocando a tampa ao seu lado. Dentro havia um maço de papeis, desorganizados e amarelados. Todas as outras caixas estavam divididas em pastas, bem organizadas. Na verdade, quando ela havia as visto ficou decepcionada: sabia que não encontraria qualquer coisa nova em algo tão bem organizado. Mas agora... Com cuidado, ela começou a olhar o material: muito da caligrafia, ela agora sabia identificar, era de Howard Carter, e ocasionalmente ela via a assinatura falha de Lorde Carnarvon. Na maior parte eram registros: haviam colunas de números e nomes de fotógrafos, jornalistas, agências de notícias. Entre os papeis, ela avistou algo diferente, escondido no fundo da caixa. Era um pequeno caderno feito a mão. Media cerca de oito por dez centímetros, feito de papel grosso e amarrado com cordão encerado, sua capa estava manchada mas não identificada. A primeira página estava em branco. Na página seguinte, alguns números: somas confusas. Então um esboço ou outro: detalhes, pareciam, de jóias ou de estátuas. Um olho de Hórus a encarava. Na página seguinte, a caligrafia de Carter novamente, dessa vez distorcida e apressada. Ela começou a ler:

Eles dizem que essa é a descoberta arqueológica mais importante que já foi feita no Egito: talvez no mundo inteiro, e certamente eu sei que isso é verdade. E mesmo assim estou convencido que há algo a mais – de ainda maior importância, é possível. E o que eu encontrei até agora pode muito bem me levar ao próximo, se apenas eu pudesse –
 
"Que tal?"

O arquivista. O coração dela estava palpitando. Lentamente ela fechou a caderneta; ela cabia quase que inteira nas palmas de suas mãos.

"Bem, bem." Ela disse rapidamente, tentando não parecer ofegante. "É, hum, mais do mesmo, sabe... contas, registros, esse tipo de coisa."

"Nada empolgante?" Lara sorriu, de forma nada convincente e ela sabia. "Na verdade, não." O arquivista deu de ombros. "Bem, você sabe onde me encontrar se precisar de mim," ele disse.

Depois que ele saiu, Lara rapidamente reorganizou os papeis, empilhando todos dentro da caixa. Ninguém notaria a falta da caderneta. Bem, ninguém notaria, certo? Ficou parada ali todos esses anos, sem fazer nada por ninguém – ela devia ficar com a caderneta, podia ser útil para ela. Sorrindo, ela a guardou no bolso interno de sua jaqueta de couro. Ela se sentia bem, como há meses não se sentia.

— II —

{Capítulo ainda não recuperado, publicado em 04 de dezembro de 1999.}

— III —

{Capítulo ainda não recuperado, publicado em 11 de dezembro de 1999.}

— IV —

Lara não perdeu tempo. Ela partiu de Cairo logo que chegou, deixando para dormir no trem a caminho de Luxor. Ela atravessou o rio para o Banco Oeste, mais próximo ao Vale dos Reis, e encontrou um quarto em uma miserável e pequena pousada. Ela soltou sua mochila, e saiu para o Hilton. Era cedo no anoitecer, e o dia estava começando a esfriar.

Ciente de estar em um país muçulmano, Lara vestiu calças longas e uma camisa de mangas longas; ela envolveu um lenço ao redor do cabelo.

Na entrada do hotel, o porteiro acenou com a cabeça de forma arrogante, mas ao menos deixou ela passar; uma rajada de ar condicionado e úmido a resfriou enquanto caminhava até a recepção.

"Sim?" questionou o recepcionista. Foi apenas neste momento que Lara pensou em quem ela deveria pedir para visitar.

Mas havia apenas um nome que ela conhecia.

"Estou aqui para ver o Dr. Blackmore," ela disse, lembrando a última vez em que disse essas palavras e imaginando o que encontraria desta vez. "Acredito que ele esteja me esperando. Meu nome é Lara Croft." "Sim, senhorita Croft," disse o recepcionista com olhos sonolentos. "Pode subir. Quarto 611, por favor." Lara atravessou a sala decorada – toda de mármore pálido e ouro – e entrou no elevador. O hotel estava bem quieto, algumas poucas pessoas nos sofás de couro creme do saguão, nada mais – mas ela sabia que era o ápice da temporada de turismo, depois que o pior calor do verão já tinha passado. No sexto andar ela desceu, e fez seu caminho até o quarto de Blackmore. Bem. Hora de descobrir o que estava acontecendo. Ela bateu na porta.

Silêncio. Ela bateu novamente. "Olá?", ela anunciou. Ainda silêncio. Ela girou a maçaneta e, para sua surpresa, a porta se abriu.

Se, no escritório de Blackmore, ela não tinha certeza de como ficaria uma sala completamente revirada, agora ela não tinha dúvidas. O quarto estava vazio e escuro; quando ela acionou o interruptor de luz nada aconteceu; a energia provavelmente foi cortada. Mas puxando uma pequena lanterna do bolso de sua jaqueta, ela mirou seu feixe de luz ao redor da sala e notou que as gavetas tinham sido removidas, a porta do armário estava totalmente aberta, o delicado escritório completamente depredado – o quarto estava coberto por meias caras, acres de panos abarrotados, papeis e livros rasgados.

Pisando gentilmente no carpete grosso, com o coração na garganta, ela viu as páginas de uma revista lustrosa balançar à brisa: uma janela estava aberta. Quando ela espiou por ela, viu que dava acesso a uma saída de incêndio pintada de branco, obviamente o intruso – com Blackmore como seu refém, ela supôs – tinha escapado. Para onde ele poderia ter ido? Será que ele sabia onde a tumba estava sem a metade da caderneta dela? Era uma possibilidade. O que ela poderia fazer? Ela se levantou, pensando, e o feixe da lanterna iluminou uma carteira de fósforos numa pequena mesa de café que não tinha qualquer outra coisa; no meio do caos do quarto parecia algo deliberado. Ela a pegou. 'Íbis', dizia; nada mais. Ela enfiou no bolso, fechou a janela, saiu do quarto e desceu. O recepcionista a olhou com indiferença enquanto ela saia do elevador. "Obrigado," ela gritou, animada, e se dirigiu para a porta de saída. Não precisava contar para ele o que tinha visto. A última coisa que ela precisava era ser interrogada pela polícia de Luxor, que os céus a ajudem. "Ah –" ela deu um passo de volta em direção ao balcão e puxou a carteira de fósforos do bolso. "Sabe onde fica?"

O homem acenou com a cabeça e lhe deu um endereço, não distante da pousada. Ele até mesmo desenhou um pequeno mapa para ela, e ela saiu para o labirinto de ruas de Luxor. Ela caminhou de volta até a balsa do Nilo, então ficou no deque, pensando. Quem estava por trás disso claramente acreditava que os riscos nesse empreendimento valiam a pena.

Ela lembrou o que tinha lido sobre a jovem e teimosa viúva de Tutancâmon, a filha de Aquenáton e Nefertiti. O garoto-rei – cuja morte, em qualquer caso, permanecia um mistério – foi sucedido por seu vizir, Aí. Talvez Anquesenamom tivesse casado com ele, talvez não: de qualquer forma, ela tinha procurado por outro marido por escolha própria, ao escrever para o rei hitita, Supiluliumas, pedindo para que ele mandasse um de seus filhos para se casar com ela. "Dizem que você tem muitos filhos e se você me enviar um deles, ele será meu marido... 
 
"Eu jamais faria um de meus serventes o meu marido." Lara relembrou, enquanto lia as últimas linhas, como era fácil imaginar o relacionamento que a viúva poderia ter com o vizir astuto, tantos anos mais velho que ela, seu governador e, ainda assim – nos seus orgulhosos olhos de realeza —, seu servente.

O desaparecimento de Anquesenamom da cena após isso não era nada menos que sinistro para Lara; e ela imaginava o que a tumba dela – se, de fato, era para onde isso tudo estava indo – revelaria.

Por fim, Lara encontrou o que estava procurando e suas ruminações terminaram abruptamente. No beco escuro, uma placa de neon maltratada brilhava na sua frente: 

ÍBIS. Ao redor do nome, um bico curvo de pássaro. Esse era o lugar. E bem a tempo; ela agora estava sedenta, e esperava conseguir uma cerveja. Ela empurrou a porta e entrou no bar.

Claramente não era a happy hour. O bar estava quieto, exceto pelo vago barulho de uma antiga televisão preto-e-branco no canto; e o clique das peças de um jogo de xadrez sobre o qual dois velhos estavam curvados no lado oposto. Ela conseguia ouvir a areia arranhando as solas de suas botas. Ela pediu uma cerveja ao lúgubre barista e se acomodou perto da porta dos fundos. Alguma coisa, ela tinha certeza, iria acontecer.

"Você é um estranha nessas áreas?" Lara virou a cabeça em direção à voz, mais devagar do que o seu alerta teria normalmente causado. "Quem quer saber?", ela perguntou casualmente. O desconhecido ficou de pé em sua frente, um homem bonito, mais jovem do que ela, ela deduziu, em um terno de linho branco e usando um velho chapéu panamenho, que agora ele tirou em respeito – ou condescendência, Lara não tinha certeza. "Você é o xerife dessa área?", Lara levantou uma sobrancelha e encarou os olhos pretos do desconhecido.

"De forma alguma, querida," o homem riu. Então ela percebeu pelo sotque que ele era tão inglês quanto ela. "Como você vai? Meu nome é Haggarty, Blade Haggarty." Haggarty – o nome na nota. O contato que havia traído Blackmore? Lara tinha certeza.

"E você é –" "Emily," Lara respondeu rapidamente. Ela não gostava nada desse Blade. Ela sabia que tinha uma tendência de fazer julgamentos precoces; uma tendência que, ela lembrou a si mesma silenciosamente, já tinha salvado sua vida em mais de uma ocasião.

Para ser justo, o terno claro não indicava que ele houvesse acabado de descer uma saída de incêndio às pressas, mas nunca podia se ter certeza. "Bem, Emily, o que te traz a Luxor?" Ele sorriu para ela com dentes brancos.
 
"Apenas uma turista," ela respondeu.
 
"Interessada nas tumbas?" "Talvez." Ela encontrou a palavra certa para descrever a expressão no rosto dele. Malícia. Ugh.
 
"Talvez eu poderia te mostrar o lugar?", ele ofereceu espertamente. "A essa altura eu já sou praticamente um nativo aqui, sabe. Eu trabalho para a Reuters, a propósito. Um trabalho de aluguel, digamos assim. Um trabalho de aluguel bem solitário." Ele piscou. Ugh, ugh, ugh.
 
"Obrigado, mas não," ela disse. Ela colocou algumas moedas na mesa e checou o relógio. Algo não estava certo, e ela pensou que era melhor reduzir o prejuízo. "Nossa, como é tarde. Estou cansada, sinto muito mas tenho que ir. Foi um prazer," ela disse. Ela empurrou a cadeira para trás e seguiu em direção à porta dos fundos, para o beco ao lado do bar. Ela sabia que não deveria ter feito isso no momento em que o fez – deveria sair pela frente – mas era tarde demais. Ele tinha a seguido e bloqueado seu caminho.

"Não me deixe tão cedo, senhorita Croft," ele sibilou. "Eu não aguentaria ficar sozinho." Na escuridão azul da noite ela pôde ver o brilho opaco do cano da arma dele.

Será que ela conseguiria alcançar a dela? Não adiantaria. Ela imaginou a explosão nesse cânion estreito de tijolos velhos. Má ideia. A última batalha dela – sentada na frente de uma tela de computador – passou pela sua mente. Isso nunca seria um problema naqueles jogos desgraçados.

"Me dê a caderneta."

"Que caderneta?", ela perguntou friamente.

"Não se faça de desentendida comigo, Croft," ele surtou. "Você não vai viver para se arrepender."

"Onde está Blackmore?" "Ah, agora é nossa vez de fazer perguntas, é?" Haggarty zombou. "Não acho que você esteja em uma boa posição para fazer isso, minha querida Lara, não é?"

"Por que perguntou meu nome se você já sabia?", ela perguntou calmamente.

"Eu queria ouvir você mentir. Você é muito boa nisso, eu acho."

"Você vai descobrir que sou muito boa em muitas coisas."

Ele não percebeu o pé direito dela saindo da escuridão, chutando a arma de suas mãos. A arma voou para longe, bem longe do alcance deles, mas ele não pensou duas vezes – saltou para cima dela, derrubando-a ao chão pela virtude de sua altura e peso maiores.

Foi mais do que apenas isso – Lara lutou para se libertar mas ele era muito forte; ele conseguiu imobilizar um braço dela e ela conseguia sentir o cheiro de bebida no hálito dele, o ranço de seu suor. Ela bateu os dentes, tentando morder ele, mas ele se desviou e riu.

"Ah, Lara, mal posso esperar para ver no que mais você é boa," ele rosnou. Todo o peso dele estava sobre ela, e agora ele colocou uma mão em sua garganta.

Ela a sentiu fechar ao redor de sua traqueia e se debateu em desespero; nesse ritmo, ela não ficaria consciente por muito tempo. A sede de sangue brilhava nos olhos dele; a vitória tão próxima o deixou incauto – Lara conseguiu espremer o braço sob suas costas e pegar a faca que sempre carregava, confortavelmente aninhada na sua lombar. Seus dedos alcançaram o cabo enquanto o mundo começava a perder a cor.

Os olhos dele ficaram bem abertos em surpresa quando ela enfiou a lâmina na base do seu pescoço. Ele sequer gemeu. Uma gota de sangue preto sujou seu terno branco e ela sentiu o calor da gota através de sua camisa. O punho dele relaxou e ela conseguiu rolar para longe dele.

Ela revistou os seus bolsos. Ah – sua carteira. E obviamente, quando ela a virou, as páginas faltantes da caderneta caíram, esvoaçantes. Lara caminhou para fora do beco. Quando finalmente se encontrou sob um poste de luz, se abaixou no pavimento e deu a primeira olhada a fundo na caderneta desde que tinha a roubado do arquivo. Será que conseguiria desvendá-la sozinha? Bem, agora teria que conseguir. Ela não tinha escolha.

— V —

{Capítulo ainda não recuperado, publicado em 24 de dezembro de 1999.}

— VI —

Selos de argila. Já haviam sido violados uma vez, pelo que parecia, e então selados novamente em seguida; um cartucho de hieróglifos estava solto na terra seca. O suor escorreu para dentro dos olhos de Lara e arderam quando ela piscou, mas ela sequer percebeu isso ou a dor abrasadora em suas costelas. Ela estava cavando há quase três horas e agora, isso – como ela havia encontrado isso? Ela pensou em Carter, escavando, ano após ano, implorando por dinheiro e então de repente – bem, ela imaginou, talvez ele pudesse ter encontrado Tutancâmon mais cedo ao invés de mais tarde. Mas Lara sabia que isso não era sorte. Ela estava destinada a encontrar isso. Quem quer que tenha roubado as páginas da caderneta havia encontrado esse lugar e trazido ela até aqui para – para quê? O medo de Lara desapareceu com a empolgação da descoberta. O coração dela batia fortemente em seu peito. Ela dobrou sua pá cuidadosamente, a colocou de volta na mochila, e se levantou diante da porta. Ela não reconhecia o que sentia, de início: depois pensou que talvez fosse reverência.

A argila se esfarelou facilmente sob sua mão. As portas da tumba abriram com uma facilidade assustadora; elas não fizeram barulho algum, como se tivessem sido lubrificadas na noite anterior. Após atravessar as portas ela se encontrou em um longo túnel de pedra, frio como uma caverna; ela tremeu conforme o suor começava a secar e sacou a lanterna de sua cinta. Vinte passos: um segundo lance de portas, mais selos de argila. Ela olhou para eles, apontando a luz da lanterna sobre eles e pensando nos séculos e séculos que eles ficaram na escuridão. Um tremor passou pela sua cabeça e ombros, e ela lembrou de algo que haviam lhe dito quando era uma garota: isso significa que alguém está caminhando sobre seu túmulo.

Novamente, ela violou os selos. Nenhum caminho a seguir a não ser em frente. As portas se abriram e quando o homem com cabeça de chacal pulou em direção a ela, ela gritou. "Maldição –"

A madeira enegrecida da estátua, ressecada após éons abaixo da superfície do deserto, rachou quando ela caiu no chão de pedra. Anúbis, o deus do mortuário, havia ficado de guarda dessa tumba por todo esse tempo; Lara tinha praticamente caminhado diretamente para seus braços. Se puxando para sair de baixo dele – a figura era quase tão grande quanto ela – ela apontou sua luz para o seu rosto cuidadosamente esculpido, com longos olhos folheados a ouro. Belo e imóvel, ele estava ao lado dela, com orelhas aguçadas, parecia que estava prestando atenção. O coração dela palpitou. O olhar dele não encarava o dela. Era apenas uma estátua. Lara levantou e continuou caminhando.

Uma antecâmara, repleta de bens de sepulcro. Botes, camas, garrafas; alabastro, ébano e ouro. Lara precisou lembrar a si mesma para respirar enquanto observava os objetos, alguns estavam esmagados e misturados. Os selos reconstruídos: outra pessoa já esteve aqui, há bastante tempo. Que tipo de ar antigo estava em seus pulmões? O ar tinha um cheiro seco de poeira e de madeira velha.

As paredes da primeira sala eram brancas, lavadas com lima, ela palpitou. Mas então atrás de outra porta – mais selos, não dê atenção, Lara disse a si mesma, apenas atravesse a porta – tudo era diferente. Aqui o chão estava praticamente vazio, e era fácil para ela caminhar; mas as paredes estavam repletas de pinturas e inscrições de figuras, tão claras como no dia em que foram feitas.

"Tema e trema, ó violentos que estão nas nuvens tempestuosas do céu. Ele partiu a terra pelo que sabia no dia em que desejou chegar lá."

Então ela viu algo. Ela apontou a lanterna para dentro da câmara e a pequena luz atingiu um pequeno canto arrredondado de pedra. Brilhante; preta como o basalto. Tudo ao redor eram blocos de pedra, esmagados, como se tivessem sido quebrados com uma marreta: os restos de um caixão exterior quadrado, esmagado pelos saqueadores que devem ter passado por aqui antes dela. Lara piscou, olhou novamente, para ter certeza. O que aconteceu com esses ladrões? Ela não pôde deixar de lembrar a maldição gótica de Corelli. De alguma forma, aquela calma com a qual ela havia desprezado a maldição na tranquilidade dos arquivos do Times não retornava. E mesmo assim ela caminhou até o sarcófago. Deitado ele tinha a altura do torso dela; ele precisou ficar na ponta dos pés para observar a face de pedra.

Era largo e impassível, indecifrável. E mesmo assim as características, pelo que lhe pareciam, eram certamente femininas; havia uma delicadeza na boca e nos olhos, e até mesmo – Lara pensou – uma certa tristeza. Ela apontou a luz ao redor da beirada do sarcófago, e quase que instantaneamente viu o cartucho que ela acreditava que jamais veria.

Anquesenamom. Ela sorriu na escuridão, então avistou o grande escaravalho de esmeralda afixado no peito do grante caixão.

Lara esticou a mão para tocá-lo. Estranhamente, parecia estar quente para seus dedos. Não, realmente estava quente: ela tocou o sarcófago e então o escaravelho, alternando algumas vezes. Ela não estava imaginando isso. Abaixo dos seus dedos, também, ela pôde sentir arranhões na pedra, como se alguém tivesse tentado arrancar a jóia antes de ser interrompido. Era essa a jóia da qual a caderneta falava? Qual era seu poder? O ceticismo inerente de Lara extravasou como areia para fora de um vidro. Era difícil para ela não acreditar em nada diante disso. Ela esticou as mãos, pronta para tomar a jóia, quando ouviu um clique familiar e arrepiante atrás de si. "Nem mais um centímetro, senhorita Croft; não se você tiver qualquer afeto pela sua nuca."

— VII —

Lara congelou. Ela podia sentir a arma mirada contra ela; era como ser observado por alguém, mas pior. Ela não teria chance para pegar sua arma. Ela podia apenas ficar parada e observar a grande figura de Alvin Blackmore conforme ele emergia da escuridão para ficar de frente para ela sobre o sarcófago da rainha de Tutancâmon.

"Parabéns, Lara," ele disse. "Mesmo que tenha sido necessário te ajudar naqueles últimos passos até a tumba. Ainda assim, não poderia te privar do prazer da descoberta. E honestamente, hoje em dia, estou velho demais para tanta escavação."

"Imagino que você não tenha sofrido um ataque cardíaco," Lara disse.

"Saudável como um cavalo, querida, saudável como um cavalo!" Ele gargalhou – o eco rebateu pelas estreitas paredes de pedra da câmara – e bateu sua mão carnuda em seu peitoral largo. "Nunca estive em melhor forma. E melhor ainda, para ver você pela última vez."

"Não vai dar certo, Blackmore," ela disse.

"O que não vai? É claro que vai. Você roubou o caderninho do Carter, disso estou certo; e você não teria o pego se alguém soubesse de sua existência. Então agora apenas dois de nós sabemos sobre ele – com o Haggarty eu estava disposto a me arriscar pois imaginei que você acabaria com ele, e fico grato que você não me decepcionou. Mas, sério, quando eu vi o que estava em jogo, não poderia deixar você sair por aí fazendo um tumulto sobre isso."

"Então por que não me matou imediatamente? Por que me trazer até aqui e deixar eu encontrar a tumba?"

"Como eu disse, eu queria que você se divertisse um pouco antes de partir, Lara. Seria cruel de outra forma, não acha? Mas eu não iria assassinar a bem-conectada Lara Croft a sangue frio em Londres. Seria uma morte improvável para você. Agora, se Lara Croft morresse num colapso enquanto estava na trilha de uma das últimas tumbas ocultas do Egito – sim, isso faria sentido total. Ninguém iria sonhar em fazer qualquer tipo de pergunta embaraçosa."

"É, eu acho que não," Lara admitiu.

"É uma pena, na verdade. Eu gosto de você. Te admiro. Você é esperta, embora um pouco ingênua. Eu acho que você não seria capaz de resistir às promessas de Anquesenamom. O tipo de coisa que faria qualquer pessoa jogar todas suas preocupações ao vento, não é mesmo?"

"Parece que sim," Lara disse. "Então você acredita nisso, na promessa de vida eterna?"

"Bem," Blackmore disse. "Não há mal em tentar, há? E mesmo assim, mesmo que seja tudo bobagem, você viu os tesouros que estavam do lado de fora. Eu nunca acreditei na triste filosofia de que dinheiro e fama não são capazes de comprar a felicidade. Eu sempre notei, pelo menos no caso do primeiro, que o exato oposto que é verdade."

"Sua irmã te conhece melhor do que você pensa, sabe. Ela disse que nada jamais seria o suficiente para você."

"Cornelia? Você falou com a Cornelia? Querida Cornelia, como ela estava? Eu pediria para você mandar saudações minhas, mas agora é tarde demais." Blackmore sorriu, e mantendo a arma apontada para Lara, estendeu-se para pegar a jóia engastada no sarcófago. A voz dele tremia com animação, enquanto ele recitava a última página da caderneta que estava em sua posse. "Quem quer que clame a jóia do peito da viúva descobrirá que Rá nunca se põe para ele, ou para sua geração," ele entoou. "A vida eterna será dele, assim como o Nilo cresce e flui eternamente em seu banco majestoso." E ele esticou o braço, envolveu os dedos ao redor da esmeralda e a levantou de seu lugar.

Instantaneamente ela brilhou com uma luz branca; tão clara que Lara sequer podia ver os ossos da mão de Blackmore. O rosto dele resplandeceu, iluminado e sombreado pela luz não-natural. Lara começou a tremer, mas se manteve estoica, e quando falou sua voz estava quase tão firme como ela gostaria que estivesse. "Você nunca viu a última página, não é, Blackmore?"

"O quê?" Os olhos dele estavam em chamas, ele parecia tomado por algo inumano e terrível.

"Quem quer que clame a jóia do peito da viúva descobrirá que Rá nunca se põe para ele, ou para sua geração. A vida eterna será dele, assim como o Nilo cresce e flui eternamente em seu banco majestoso. Se ele for digno, essa recompensa virá; se a alma dele pesar na escala, a retribuição dos deuses certamente chegará."

Mais tarde, quando Lara tentou explicar o que estava prestes à acontecer, ela descobriu que sua facilidade com palavras havia a deixado. Como descrever melhor – ela tinha escrito, repetidas vezes, e então amassava cada nova tentativa e a jogava no lixo. As imagens tinham saído das paredes. Elas tinham se desprendido sozinhas e corriam até eles – não como ela tinha imaginado a estátua de Anúbis caindo e se movimentando, mas com braços e olhos negros ardentes estirados, com formas planas transformadas em carne.
 
Hórus, cabeça de águia, de um olho, justo e terrível; Osíris, as coroas do Egito Alto e Baixo sobre sua cabeça, condenado como um deus para governar os mortos; sua esposã-irmã Ísis, seu rosto forte realçado com a dor da perda. E atrás de todos eles uma figura tão terrível que Lara sentiu o ar ser arrancado de seus pulmões simplesmente ao olhar para ela.

Homem ou besta, impossível dizer – a cabeça de um animal saído de um pesadelo, dentes grandes, olhos impetuosos, lodo e mau hálito: o fedor dos mortos. Era essa figura que parecia estar no comando enquanto as demais criaturas se viraram contra Blackmore e dilaceraram-no em dúzias de pedaços. O cheiro de carne humana queimada dominou o ar seco da tumba.

Lara teria dificuldades para decidir se incluiria o próximo detalhe em sua história – ela desmaiou. O que ela lembra foram as sombras se transformando em uma teia de aranha, um ninho que a prendeu e a carregou para fora da tumba, deixando-a estirada na areia sob o ar do deserto. Quando ela abriu os olhos ela viu – ou sonhou? – com a cabeça bestial de Seth pairando sobre ela com um aviso antes de sumir na névoa. A morte surge em asas para aquele que entra na tumba de um faraó.

A areia quente do deserto apoiava sua cabeça. Lara sentou. Sua costela estava doendo mais do que nunca, mas ela conseguia tolerar. Na distância, ela viu um nevoeiro de fumaça que indicava onde a cidade estava; ele se virou e começou a caminhar naquela direção. Bem, ela certamente teria algo para contar para Jeremy quando o encontrasse no lugar para onde as pistas dele a levaram. Ela imaginou se ele seria capaz de enganá-la... mas talvez não era essa a questão. Ela apressou o passo no calor do deserto. Ela estava realmente ansiosa para encontrá-lo.

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Texto original de Erica Wagner, traduzido para o blog Raider Daze e compartilhado sem fins lucrativos ou intenção de violação de quaisquer direitos. Publicados originalmente no jornal britânico The Times em 1999.