Lara Croft realmente é a
garota da capa
suprema. Mesmo na fictícia revista Astonishing Travels ela figurou na capa em
duas edições consecutivas: alguns meses atrás, a
edição #310 tentava descobrir o interesse dela no Peru, e agora, na edição #311, os editores conversam sobre sua chegada à Grécia.
Novamente, acho válido considerar esse conteúdo como fanfic oficializada, uma
vez que ela vem diretamente do estúdio — mais especificamente, assinada por Meagan Marie —, e alguns pequenos fragmentos de
informação são disponibilizados aqui e ali. Por exemplo, o conceito da
Sociedade dos Saqueadores é tocado superficialmente, até mesmo com um certo tom de ironia (os
"Vingadores Arqueológicos"), e é refutada a possibilidade de Lara
fazer parte de um grupo assim.
A base da Natla Tech agora é localizada em San Francisco (de acordo com a
versão de TR1 para N-Gage, ficava originalmente em Seattle), e existe uma rápida referência a
Rise que, de acordo com o jornalista, é tratada como um boato e
que não foi comentado nem por Lara e nem por seus representantes.
A
arte de capa
é uma ilustração da fã e cosplayer Illyne, que também contribuiu com
uma nova arte
que está sendo divulgada como uma capa variante para a edição do Peru. Aliás,
vale destacar que eles citam a Illyne por nome na fic, dando a entender que
nós voltamos a
viver no mesmo mundo que Lara.
Para fins de preservação, reproduzo abaixo a versão traduzida disponibilizada
pelo site oficial:
Nora Bennett: É um prazer receber os leitores em mais uma edição de
Notas de campo, Viagens Surpreendentes, a série periódica de
mesas-redondas em que os padrões editoriais são um pouco menos rígidos e a
especulação tem lugar à mesa. No caso, um lugar espaçoso até demais. Sou Nora
Bennettt, editora-chefe desta singela publicação. Mais uma vez tenho a
companhia de nosso residente especialista em teorias marginais Julian Mercer,
que eu imagino estar todo convencido após o sucesso da nossa matéria de capa
anterior, que rastreou a enigmática Lara Croft até os Andes peruanos.
Julian Mercer: Nossa editora ficou muito satisfeita.
Nora: E nós também. Você desvendou um excelente mistério e
ligou os pontos capazes de despertar uma bela dose de especulação no
nosso público leitor, e, de certo modo, muito além dele.
Julian: Lara Croft e Jacqueline Natla na mesma história?
Irresistível. Uma é a obsessão da imprensa e a outra, um ímã de
conspirações.
Nora: Qual delas é qual?
Julian: A distinção se perde na análise. A questão é: eu deveria ter
previsto até onde essa matéria ganharia o mundo além do nosso público usual.
Nora: Humildade não combina com você, Julian.
Julian: Claramente incomoda.
Nora:
Mas um certo orgulho é justificável. Esgotamos a primeira tiragem da edição
do Peru, as assinaturas dispararam e, com isso, nossa editora abriu a
carteira. Para quem perdeu a matéria original, vamos lançar uma reimpressão
por tempo limitado da edição 310 com uma nova capa ilustrada no lugar
daquela foto de divulgação batida. Esta edição, que acompanha Lara Croft na
Grécia, recebeu o mesmo tratamento. Ambas foram ilustradas por uma talentosa
integrante da comunidade Lara Croft. Na internet, ela é conhecida como
Illyne.
Julian: Nem precisa dizer: se Lara não tinha ciência da
Viagens Surpreendentes, agora com certeza estamos na mira dela. Ela
foi vista há pouco em Londres, e alguns dos jornais com menos escrúpulos a
vêm perseguindo com teorias cada vez mais escabrosas: que Lara teria
sacrificado Carlos em um antigo ritual apocalíptico em Vilcabamba, ou que
ela estaria buscando alguma arma biotecnológica para Natla, entre outros. Ao
que tudo indica, a postura gélida habitual da Lara permanece intacta. Nem
ela, nem algum de seus representantes deram declarações.
Nora: E então Lara voltou para casa?
Julian: Sim. Seja qual tenha sido essa caçada, parece ter incluído
muitos destinos em rápida sucessão. Estamos em um jogo de gato e rato para
reconstruir um itinerário que ela já percorreu.
Nora: O mundo não acabou por algum apocalipse ancestral, tampouco a
Natla Tech desvelou alguma arma biotecnológica revolucionária, então eu acho
que, por enquanto, podemos deixar esse tipo de teoria de lado.
Julian: Concordo.
Nora: Nossos leitores estão sedentos por novidades. Mas antes de
partirmos para a Grécia, vamos esclarecer a questão do Peru.
Julian: Infelizmente, ainda sem notícias de Carlos. Omitimos
propositalmente as coordenadas da aldeia andina em questão, e com razão,
para impedir que os teóricos transformassem a busca por Carlos em uma
malfadada expedição por conta própria.
Nora: Ainda tenho esperança de que ele esteja em alguma praia por aí.
Julian: Em nome dos procedimentos legais, contatei as autoridades da
região. Não demonstraram muito interesse em investigar o assunto. Alegaram
basicamente que o terreno é perigoso, que a rota do Carlos é desconhecida e
que quem se dispõe a entrar nas montanhas assume o risco. Meio indiferente,
não acha?
Nora: Ou pragmático, depende do ponto de vista.
Julian: Ou, ainda, bem cômodo. Não foram só as autoridades que
pararam de se manifestar. Meu contato na aldeia deu alguns novos detalhes e
depois também calou o bico. Não gostei muito de ver tantas portas se
fecharem depois da nossa publicação.
Nora: Nem eu. O que você descobriu antes que se fechassem?
Julian: Que o loiro voltou lá.
Nora: Voltou? Dissemos que ele tinha ido embora no avião da Natla.
Julian: E foi mesmo. Com o prazo de fechamento da edição chegando,
concentrei meus esforços em encontrar a Lara. Quando voltei a investigar,
fiquei sabendo que a mesma aeronave voltou à pista de pouso menos de 48
horas depois, com ele a bordo. E não foi a única a pousar ali. Alguns outros
voos fretados chegaram àquela pista no mesmo período.
Nora: E você não ficou sabendo?
Julian: Questão de prioridades. Não esqueça que é uma pista de pouso
industrial que atende à mineração. Voos de carga não são necessariamente
suspeitos. A situação ficou ainda mais interessante quando meu contato
revelou que a carga, os empreiteiros que chegaram com ela e o nosso loiro
norte-americano viajaram todos juntos.
Nora: De volta à aldeia?
Julian: Passando por ela a caminho da montanha. O equipamento trazia
dispositivos de içamento industriais, geradores e uma quantidade
considerável de painéis e estruturas metálicas reforçadas. Dos grandes,
transportados em partes.
Nora: Para quê?
Julian: Não sei ao certo. Mas meu contato achou que algumas
estruturas depois de montadas lembravam claramente uma jaula.
Nora: Jaula?
Julian: Palavras dela, não minhas. Nos dias seguintes, a movimentação
de helicópteros foi significativamente maior na região.
Nora: Então o colega da Natla vai embora do Peru e volta dois dias
depois com empreiteiros, voos de carga, equipamentos pesados, painéis
modulares e apoio de helicópteros.
Julian: Infelizmente, foram as últimas informações úteis que eu
consegui. Ela voltou a entrar em contato, mas só para deixar claro que nunca
mais falaria comigo. Considerando as circunstâncias, não consigo deixar de
pensar que alguém com um orçamento maior tenha comprado o silêncio dela.
Nora: E você acha que foi o mesmo caso com as autoridades locais?
Julian: Eu seria ingênuo em descartar essa possibilidade.
Nora: Bom, nada de botar os pés em terras peruanas de novo. Você não
poderia ter pedido ao seu amigo do satélite para rastrear a operação?
Julian: Não. Aquele foi um favor de dose única. Uma parte de mim se
arrepende de ter usado aquela carta tão cedo, mas, sendo realista, a matéria
do Peru não existiria sem ela. Então, não posso reclamar.
Nora: Talvez seja uma boa hora de lembrar aos nossos assinantes como
fazer para entrar em contato com a gente caso tenham acesso a tecnologia via
satélite.
Julian: Não seria forçar a barra demais. Tão logo o Peru chegou às
bancas, fomos inundados de pistas. É claro que a maioria eram bobagens, mas
umas tantas foram de uma utilidade surpreendente. Uma delas lançou luz sobre
uma parada rápida da Lara no trajeto entre o Peru e a Grécia, que eu já
tinha registrado, mas não sabia explicar. São Francisco.
Nora: Já que sabia dessa parada, por que não falou dela na outra
edição?
Julian: Porque eu só tinha um prefixo de aeronave e algumas horas em
solo, mas sem sinal de para onde ela foi ou por quê.
Nora: E o atraso não teve nada a ver com a necessidade de criar uma
ponte entre as histórias?
Julian: As duas coisas podem ser verdadeiras, Nora.
Nora: Criei um monstro.
Julian: Um adendo: considerando a repercussão da reportagem, tenho
certeza de que a Lara vai dar um jeito de esconder sua movimentação aérea
daqui para a frente. Dessa vez, a natureza da mídia impressa agiu em nosso
favor. Continuei acompanhando a aeronave da Lara depois que a edição do Peru
foi para o prelo. Quando a revista chegou aos leitores, eu já sabia que a
Lara tinha passado por São Francisco e seguido para a Grécia. O que me
faltava era uma teoria sobre essa parada. Ela surgiu depois.
Nora: A Lara devia te agradecer. Você revelou uma falha na segurança
dela.
Julian: Vou conter minhas expectativas quanto a um bilhete de
agradecimento.
Nora: Mas e então? Onde é que São Francisco entra nesta história?
Julian: Quanto a isso, sigo com minha incerteza frustrante. Ela
pousou à noite e ficou lá por poucas horas. A pista foi útil porque situou
Lara no
SoMa.
Nora: E por que essa informação é interessante?
Julian: Porque ela coloca a Lara a um pulo da sede da Natla
Technologies.
Nora: Aí, sim. Que interessante. Você pediu alguma declaração
à sede da Natla?
Julian: Claro. Não me responderam. Talvez por estarem cobertos de
mensagens acusando Jacqueline Natla de tentar dominar o mundo ou explorar as
preguiças inocentes da Amazônia para fins farmacológicos. Imagino que a
Natla Technologies não tenha gostado muito de a termos colocado sob os
holofotes.
Nora: Eu não saberia imaginar por quê.
Julian: O fato da Natla não ter feito sequer uma aparição pública em
semanas, o que, para ser justo, não é nada inédito, só serviu para alimentar
a especulação.
Nora: Não é um beco sem saída, mas uma pista em estado terminal.
Peru. São Francisco. Grécia. Deixei passar algum tipo de padrão aqui?
Julian: Até onde eu sei, não há nenhuma ligação histórica ou cultural
óbvia entre esses três lugares. O padrão são as pessoas. Um conjunto incomum
de pessoas vivem aparecendo nos mesmos lugares.
Nora: Só isso não basta.
Julian: Eu tenho mais. Rastrear a Lara até a Grécia? Sem problema.
Rastreá-la Grécia adentro foi muito mais difícil. A aeronave dela deu
entrada em um pequeno aeródromo de aviação geral nos arredores do centro de
Atenas. Ao menos duas pessoas se lembram de tê-la visto no local. Uma delas
até postou isso nas redes sociais. Por capricho da sorte, o aeródromo já
tinha recebido atenção indesejada naquela mesma semana, então a segurança e
os frequentadores estavam muito alertas.
Nora: E por que seria?
Julian: Um grupo considerável do que pareciam ser seguranças
particulares terceirizados passaram por ali poucos dias antes. É um
aeródromo relativamente pequeno, utilizado para aeronaves particulares, esse
tipo de coisa. Portanto, esse pessoal chamou a atenção, ainda mais
transportando estojos de fuzis e outras armas em meio aos equipamentos
descarregados. A segurança informou a situação à polícia local, que
prontamente, e talvez rápido demais, garantiu a todos que a documentação do
grupo estava nos conformes. Não houve mais investigações.
Nora: Eles estavam agindo legalmente?
Julian: Ou alguém legalizou a documentação deles. Um veículo local
publicou sobre as denúncias, então eu contatei o jornalista. Ele tentou
acesso à papelada que as autoridades alegaram ter analisado, mas não chegou
a lugar algum. Mesmo trabalhando em conjunto, não conseguimos definir quem
contratou o tal grupo. As fotografias tiradas em torno do aeródromo, além de
uma imagem estática fornecida pela fonte do aeroporto, também não ajudaram
muito. Sem emblemas nem marcas corporativas. Ninguém que pudéssemos
identificar com certeza. Talvez tenha sido até bom.
Nora: ...está amarelando, Julian?
Julian: Na verdade, estou bem corado, mas prefiro não atrair a
atenção de um grupo de profissionais fortemente armados que trabalham não
sei para quem. Se houver uma conexão entre tudo isso, o que eu tendo cada
vez mais a acreditar, é o caso de se questionar o nível de armamento
necessário no meio arqueológico.
Nora: Questionamento justo. Quem você acha que estava no comando?
Julian: É aqui que as coisas ficam mais interessantes. Os próprios
terceirizados eram de um profissionalismo notável. Bem-apessoados.
Sincronizados. Mas uma conta local descreveu um homem que viajava com eles e
era claramente um estranho no ninho: cabelos grisalhos, cavanhaque e um
possível sotaque francês. Muito mais vívido que os demais e tratado com
tamanha distinção que eu desconfio que ele fosse o cliente, ou pelo menos
que comandasse a operação.
Nora: E para onde eles foram?
Julian: Carregaram os equipamentos e rumaram para o nordeste do país
Nora: Quando a Lara chegou?
Julian: Menos de 24 horas depois. No mesmo aeródromo, e também seguiu
para nordeste. Desta vez, sozinha. Sem guias, sem parceiros. Comecei a
analisar então os relatos sobre o comboio: avistamentos à beira da estrada,
paradas para abastecimento e mantimentos, tudo a que eu pudesse dar
substância. Cada relato fechava mais o cerco. A partir daí, pesquisei locais
de interesse histórico ao longo da rota provável.
Nora: E aí?
Julian: O que não falta na Grécia são ruínas. Comecei com uma dúzia
de possibilidades e descartei primeiro as óbvias. Grandes destinos
turísticos, sítios da UNESCO, onde quer que um comboio terceirizado armado
fosse chamar à atenção de imediato. Vários outros locais tinham trabalhos de
escavação ou preservação em andamento, o que os tornava igualmente
improváveis. Eu me vi retornando a um candidato convincente: St. Francis’
Folly.
Nora: O monastério bizantino? Está fechado há décadas.
Julian: Por quase um século inteiro. O sítio arqueológico em si é
potencialmente muito mais antigo do que o nome sugere, mas o complexo
monástico remanescente é o que consta da maioria dos registros modernos. O
acesso público e acadêmico foi proibido há muito tempo, supostamente porque
tanto as ruínas quanto o penhasco sob elas sofrem de perigosa instabilidade.
Foi emitido um alerta para um desabamento “iminente”.
Nora: Iminente por quase um século?
Julian: A iminência é um conceito amplo, pelo visto. Ao longo das
décadas, foram várias as tentativas de estabilizar o penhasco e tornar as
abordagens à área externa seguras. Algumas até saíram do papel, embora o
trabalho raramente tenha ido além da face do penhasco e das rotas de acesso.
Nora: E ninguém nunca concluiu?
Julian: Não. Por um motivo ou outro, esses esforços de estabilização
sempre desabam muito antes do próprio penhasco. A verba desaparece. Os
contratos são cancelados. O esforço sério mais recente teve fim quando três
operários morreram em acidentes separados, no início do projeto. Há poucos
anos, ficou famoso o caso do criador de conteúdo que ignorou as barreiras e
avisos de proibição de entrada e foi encontrado morto na base do penhasco.
Desde então, não houve novas tentativas de estabilização.
Nora: No mínimo, suspeito.
Julian: Sítios antigos assim têm uma periculosidade inerente.
Nora: Está defendendo a explicação do senso comum desta vez, Julian?
Julian: Claro que não. Só estou comentando que penhascos podem matar
sem nenhuma ajuda e que tem sido assim desde a aurora da humanidade. É
difícil chegar a St. Francis’ Folly porque foi construído em um local de
difícil acesso. Comunidades religiosas em busca de isolamento não costumam
facilitar a aproximação.
Nora: Então o local em si não incomoda você.
Julian: O local? Não. Mas a notável consistência com que as
tentativas de investigá-lo ou estabilizá-lo fracassaram. Isso me interessa
muito mais. E há também as teorias…
Nora: É isso que estávamos esperando.
Julian: Uma das minhas principais fontes acredita que gente muito
influente usou de burocracia para esconder sítios arqueológicos à vista de
todos. Dá para retirar as verbas. É possível contestar os contratos. Um
sítio pode ficar sob restrições de segurança por tempo indeterminado, por
exemplo.
Nora: Essa fonte faz parte da sua trupe de incursões? Seus vingadores
arqueológicos? Como você os chamou mesmo?
Julian: De novo, com entonação: Eu nunca falei de nenhuma rede
organizada de exploradores. Tenho meus contatos. Foi você quem tirou
conclusões precipitadas e os promoveu a sociedade secreta por sua conta e
risco.
Nora: Eu só peguei a sua deixa.
Julian: Você me pegou.
Nora: Mas tudo bem. Supondo que tal organização exista, a Lara
Croft faria parte dela?
Julian: Duvido. A Lara Croft sempre demonstrou preferência por
trabalhar de forma independente e um desprezo por instituições muito bem
documentado.
Nora: É verdade. Com relação a essa fonte específica, o quanto ela é
confiável?
Julian: As informações que me passou já se mostraram confiáveis
tantas vezes que eu levo a sério até as teorias mais incomuns que me
apresenta. Infelizmente eu sei muito pouco sobre essa pessoa, além de ela
não ser falante nativa do inglês e de ter um interesse na Lara tão grande
quanto o meu.
Nora: Alguma ideia de onde essa pessoa é?
Julian: Muito provavelmente, é francófona. Nossas mensagens tiveram
alguns indícios linguísticos.
Nora: Essa sua fonte pode ser o tal francês que comanda o comboio?
Julian: O mundo tem centenas de milhões de falantes de francês, Nora.
Nora: O que você tinha falado mesmo sobre coincidências na edição
passada, Julian?
Julian: As coincidências, quanto mais frequentes, menos convincentes.
Nora: Só estou comentando.
Julian: A teoria dela de que alguns sítios seriam mantidos
inacessíveis de forma proposital vem de antes dessa investigação. Quando a
Croft entrou na história, fiz contato imaginando ouvir algum comentário
dessa minha fonte. Desta vez, ela não retornou nenhuma das minhas mensagens,
o que é incomum.
Nora: Mais uma porta fechada.
Julian: Exatamente.
Nora: Está anotado. Voltando a St. Francis’ Folly.
Julian: Depois que foquei o Folly, comecei a folhear boletins
policiais locais em busca de mais avistamentos do comboio. Acabei
encontrando algo bem mais interessante. Um mochileiro de longas distâncias,
que fazia uma trilha isolada por uma crista vizinha, relatou ter ouvido
explosões vindo da direção do monastério. Ele também viu cortinas de fumaça
tênues se erguendo sobre as montanhas do entorno.
Nora: Quando ele deu esse relato?
Julian: Não foi de imediato. Ele estava muito longe das rotas
habituais e só alcançou o ponto de reabastecimento seguinte dois dias
depois. Quando chegou lá, ele deu o depoimento, e a polícia conduziu uma
inspeção vários dias depois.
Nora: Essa investigação deu em alguma coisa?
Julian: Não houve busca em campo. Considerando a instabilidade e o
acesso restrito do local, acharam um risco desnecessário e fizeram um drone
sobrevoar por lá. Não havia danos visíveis nas ruínas exteriores. O único
sinal claro recente de atividade humana foi um pequeno acampamento
provisório perto de um dos acessos. Embalagens de alimentos descartadas,
lixo, esse tipo de coisa.
Nora: E a polícia atribuiu a sujeira a...?
Julian: Um invasor.
Nora: Não parece mesmo ser coisa de uma unidade militar bem-treinada.
Julian: Concordo. Esse acampamento poderia pertencer a tanta gente. O
que interessa é que alguém esteve lá há pouco tempo.
Nora: E as explosões?
Julian: A conclusão oficial foi a de que o mochileiro confundiu um
desmoronamento com uma explosão.
Nora: O desmoronamento explicaria um estrondo, mas ele relatou
vários, não foi?
Julian: E foi mesmo. Vista de longe, a poeira pode parecer fumaça,
então essa cortina de fumaça não é particularmente incriminadora. Mas o
relatório não explica de forma clara e precisa os diversos barulhos e as
ondas de fumaça. Quando a polícia inspecionou o local, já haviam se passado
vários dias.
Nora: Muito cômodo.
Julian: Admissível. E muito cômodo.
Nora: Bom, resumindo, Lara Croft e um comboio fortemente armado
seguem na mesma direção. Você identifica um sítio arqueológico restrito ao
longo da rota provável dessa turma. E, na mesma época, uma testemunha relata
várias supostas explosões no tal sítio arqueológico e a polícia encontra
provas de atividade humana recente.
Julian: Tudo leva a crer que sim. O que levanta a pergunta óbvia: se
o destino era St. Francis’ Folly, o que teria atraído tamanha atenção e
poder de fogo?
Nora: Já concordamos que fama e riqueza não são o que motiva a Lara
Croft. Tem que haver algo a mais. Repasse para nós a história de St.
Francis’ Folly e do entorno. Algo me diz que você também tem uma teoria.
Julian: Até hoje nenhuma equipe moderna autorizada concluiu uma
vistoria completa do interior de St. Francis’ Folly. Por isso, a maior parte
do que sabemos vem de inspeções externas, imagens de drones e observações à
distância. Engenheiros trabalharam em trechos da face do penhasco e acessos
visíveis, mas o interior permanece em grande parte não documentado. Visto de
fora, porém, o complexo remanescente é inconfundivelmente bizantino: um
monastério construído em um local que já era notável.
Nora: Só um aparte: a Lara Croft tem um interesse todo especial pelo
período bizantino, não é? Há alguns anos, não veio à tona que ela entrou
ilegalmente na Síria aos 20 e poucos anos na tentativa de continuar a
pesquisa do pai?
Julian: Não houve uma resposta oficial a esse boato por parte da Lara
nem de seus representantes.
Nora: Surpreendendo zero pessoas.
Julian: O que torna Folly ainda mais fascinante é que raramente se
construíam monastérios bizantinos na Grécia em locais historicamente
isolados. Ao longo da região, vemos uma civilização construir sobre os
destroços de outra: templos reutilizados, fundações incorporadas, pedras
reaproveitadas. Camada sobre camada de história. Essa possibilidade é um dos
motivos que tanto levam os arqueólogos a quererem acesso.
Nora: Conte aos leitores das notas do penhasco.
Julian: Notas do penhasco sobre milênios de civilização grega? Cruel.
Nora: Surpreenda-me.
Julian: Os primeiros vestígios mais substanciais da região remontam à
civilização grega micênica: o mundo da Idade do Bronze, que viria a se
tornar indissociável das histórias de Troia e Agamêmnon e da tradição dos
heróis gregos. Quando o sistema do palácio micênico entrou em colapso, a
Grécia entrou no que hoje chamamos de primeira Idade do Ferro: assentamentos
menores, mudanças sociais e, por vários séculos, o desaparecimento de
registros escritos gregos.
Nora: Seguida do Período Arcaico grego.
Julian: Exatamente. Os assentamos cresceram, as cidades-estados
emergiram como grandes potências político-culturais, as comunidades gregas
se expandiram pelo Mediterrâneo e a arquitetura religiosa monumental se fez
cada vez mais proeminente.
Nora: O que nos leva até o Período Clássico grego.
Julian: Atenas no auge da fama. Péricles, Sócrates, Platão. O
Partenon. A tragédia grega. A Guerra do Peloponeso entre Atenas e Esparta. É
um dos períodos mais bem-documentados do mundo grego antigo.
Nora: E então veio Alexandre, o Grande.
Julian: E veio Alexandre. A morte dele assinala o início do que
chamamos de Período Helenístico, quando o idioma, a arte, a religião e a
arquitetura gregas se fundem a culturas que se estendem do Egito e a
Anatólia para a Síria, Pérsia e mais além. Foi também uma época de fascínio
por construções monumentais, engenharia, espetáculos e a reinterpretação da
mitologia mais antiga.
Nora: O que parece ter relevância em potencial.
Julian: Muita. E então o poder romano gradualmente tomou o lugar do
grego. Atenas permaneceu profundamente grega, culturalmente falando, mas o
domínio romano sobrepôs outra camada arquitetônica, expandindo a tradição de
banhos, cisternas e sistemas de distribuição de água e somando complexos
cívicos monumentais e anfiteatros construídos para espetáculos.
Nora: Inclusive dos mais sangrentos.
Julian: Tipo isso. Combates de gladiadores e venationes: caçadas
encenadas envolvendo animais como ursos e lobos até leões e leopardos, e
eventualmente inserções mais exóticas, como crocodilos.
Nora: Até que um dia o império se cristianizou.
Julian: Exatamente. Os templos mais antigos foram abandonados,
desmantelados, convertidos ou simplesmente se construiu por cima deles. O
cristianismo transformava o cenário religioso e físico. No período
bizantino, igrejas e monastérios tinham se tornado a marca definidora da
Grécia.
Nora: O que nos traz de volta a St. Francis’ Folly.
Julian: O monastério visível diz respeito à camada bizantina. Mas se
o padrão observado em outras partes da Grécia se confirmar, os bizantinos
podem simplesmente ter sido os últimos, mas não os primeiros, a construir
sobre o tal penhasco.
Nora: Logo, o que de fora parecem ruínas de um monastério pode, em
tese, conter diversos períodos da história grega por baixo.
Julian: Exatamente.
Nora: Parabéns pelo incrível poder de síntese.
Julian: É este o apelo de sítios como St. Francis’ Folly. À primeira
vista, é inconfundivelmente bizantino. Mas, considerando o histórico da
região de construções sobre estruturas mais antigas, um sítio assim pode ter
sido ocupado, ampliado e reinterpretado por séculos. A depender do período,
podemos estar diante de templos ou monumentos associados a todo tipo de
deuses: Atena, Apolo, Poseidon, Ártemis, Hefesto, só para citar alguns.
Nora: Há precedentes de descobertas nessa escala na região? Ou
estamos nos deixando levar por devaneios?
Julian: Elêusis por si só já combate qualquer ceticismo. A uma breve
distância de Atenas, despontava um enorme santuário dedicado a Deméter e
Perséfone, lar dos Mistérios de Elêusis, ritos iniciáticos secretos. Os
participantes eram celebremente impedidos de revelar o que acontecia ali. O
próprio complexo evoluiu ao longo dos séculos. Se um lugar dessa importância
existia tão próximo a Atenas, me recuso a descartar a possibilidade de que
algo extraordinário ainda espere por ser encontrado.
Nora: Quando você acredita que St. Francis’ Folly foi ocupado pela
última vez? Os registros remanescentes não poderiam nos revelar algo dos
primeiros usos do sítio?
Julian: Os registros remanescentes situam ali uma comunidade
monástica por volta de 1270 d.C., mas não definem precisamente onde o
monastério foi fundado e nos contam muito pouco sobre a vida cotidiana no
local, para nossa decepção. É no material mais antigo que a coisa fica mais
interessante.
Nora: Então me conte.
Julian: Fragmentos de relatos por volta do século V a.C. descrevem
atenienses influentes, tais como estadistas, magistrados e eruditos,
vinculados a um estrangeiro não identificado e a um projeto secreto de
construção afastado da cidade. É claro que nenhum deles menciona St.
Francis’ Folly, e nenhum informa claramente o que estaria sendo construído.
Nora: Agora estamos chegando a algum lugar. Seria o seu equivalente
grego de Vilcabamba?
Julian: Devo lembrar que a teoria de Vilcabamba tinha o apoio de
membros da academia.
Nora: Membros anônimos e seletos da academia.
Julian: É justo. Mas sim, tem mais coisa. O mesmo conjunto de relatos
se refere a esse estrangeiro como um estranho dourado: um homem sem
vínculo conhecido com nenhuma pólis e que levou o mérito de propiciar um
período de ordem e prosperidade extraordinário àqueles à sua volta. O rastro
remanescente é disperso. Cópias e registros familiares posteriores surgiram
em Corinto, Tebas e outros locais, mas todos parecem remontar a pessoas
vinculadas a Atenas. É impossível dizer se essa dispersão reflete um segredo
deliberado ou simplesmente séculos de cópias.
Nora: Dourado. Seria uma referência ao Rei Midas?
Julian: Alguns relatos o comparam mesmo a Midas, porque a
prosperidade também parecia acompanhar os seus passos. Não significa que
alguém acreditasse realmente que o rei frígio tivesse regressado. Uma
comparação repetida diversas vezes pode se tornar uma lenda.
Nora: Ou a coisa toda pode ser propaganda política.
Julian: Com toda certeza. Cidades rivais têm todos os motivos para
desmerecer Atenas dando os créditos de suas conquistas a algum forasteiro
misterioso. Mas os relatos também trazem alguns detalhes estranhamente
práticos: pedras se deslocando à noite, trabalhadores jurando sigilo e um
grande projeto de construção cujo propósito nunca foi admitido publicamente.
Nora: Intrigante.
Julian: O que torna o caso ainda mais interessante é o que teria
acontecido depois. O projeto parece ter iniciado como um feito notável, mas
ainda explicável, da engenharia ateniense. Mas então os construtores teriam
encontrado uma obra anterior embaixo ou dentro do sítio, com estruturas que
eles supostamente não puderam explicar. A partir daquele ponto, o trabalho
ficou mais sofisticado, secreto e, aparentemente, mais perigoso.
Nora: Perigoso, como? Estamos finalmente chegando àquele momento em
que a arqueologia vira filme de ação?
Julian: Estamos a uma placa de pressão de distância. Falando sério:
as descrições remanescentes são vagas demais para podermos afirmar.
Arquitetura ritual, mecanismos de defesa, riscos estruturais, ou apenas uma
história que fica mais extraordinária cada vez que é recontada? Não vou
fingir que sabemos o bastante para distinguir entre as hipóteses.
Nora: Algum desses relatos corresponde a um sítio arqueológico
existente?
Julian: Não de maneira conclusiva. E nada os vincula diretamente a
St. Francis’ Folly. Mas Folly cumpre alguns dos requisitos que podemos
inferir: próximo o bastante de Atenas, de difícil acesso e de interior ainda
parcamente documentado. Há o bastante para manter a hipótese no radar, mas
não para bater o martelo.
Nora: Então não há provas sólidas que liguem o “estranho dourado” a
Folly.
Julian: Não. O que temos são indícios circunstanciais e uma
quantidade incômoda de perguntas sem resposta.
Nora: Dentre elas, por que alguém se dedicaria a limitar o acesso ao
local.
Julian: Agora você pensou como eu. O que nos deixa com a pergunta que
eu acho bem curiosa: se o que há em St. Francis’ Folly é digno de proteção,
então também é digno da atenção de Lara Croft?
Nora: São mais perguntas do que respostas, Julian. E se essa história
toda tiver começado exatamente assim? Como uma ficção? Um antigo conto
repetido tanta vezes que as pessoas começaram a tomar como realidade?
Julian: Bom, com certeza não posso descartar essa possibilidade. Mas
você não me mantém por perto para chegar à explicação mais fácil. Você
claramente me chama claramente para sair do óbvio.
Nora: Parece que temos uma quantidade inesperada de novos assinantes
em busca de novidades.
Julian: Então acho que é o momento de dar um desfecho a este capítulo
do nosso mistério.
Nora: Por favor. Os empreiteiros saíram pelo mesmo aeródromo por onde
chegaram?
Julian: Alguns, sim.
Nora: Alguns?
Julian: Os que foram vistos partindo estavam em número bem menor.
Pela melhor das minhas estimativas, um terço do grupo original partiu pelo
mesmo aeródromo. Segundo as testemunhas, os que o fizeram aparentavam estar
bem esgotados.
Nora: Você acha que os outros morreram?
Julian: Que sensacionalismo estranho da sua parte. Eu falei que o
paradeiro deles era desconhecido. Podem ter ido embora por outro caminho,
ficado na Grécia ou recebido novas ordens para se dirigirem a um lugar além
das minhas capacidades de rastreá-los. Mas considerando os relatos de
explosões em Folly, seria ingênuo descartar a possibilidade de algumas
baixas.
Nora: Por isso estou sentindo toda essa hesitação vinda de você.
Julian: E eu tenho culpa? Não posso confirmar nenhuma morte. Posso
confirmar que pessoas ligadas a essa história vivem sumindo de cena. Carlos.
Empreiteiros. Fontes que cortam o contato do nada. Chega uma hora em que é
preciso pensar que esse não é mais o tipo de mistério que as pessoas
perseguem apenas por um artefato ou por um pouco de reconhecimento
histórico.
Nora: Tudo indica que já se tornou outra coisa. O francês estava
entre os que foram vistos indo embora? O suposto líder?
Julian: Não estava.
Nora: E sua fonte de longa data, com um interesse incomum em Lara
Croft e que você acredita ser de um país francófono, parou de responder mais
ou menos na mesma época?
Julian: Sim.
Nora: Dá o que pensar. Entendo os seus temores. Se tirarmos as
teorias mais delirantes, ainda temos Lara Croft em uma aventura
internacional, Jacqueline Natla longe dos olhos do público, um grupo de
terceirizados armados não identificados, autoridades com uma notável falta
de curiosidade, relato de explosões em um sítio arqueológico e um mistério
de mais de dois mil anos que nunca teve uma resposta satisfatória. Até aqui
eu admito: é uma sequência bem curiosa de coincidências.
Julian: Repito: não estou amarelando. Só tomando cuidados
apropriados.
Nora: Quero deixar gravado que Julian acabou de fazer um som que eu
descreveria como uma risada nervosa.
Julian: Que grosseria.
Nora: Você conhece esse mundo melhor do que a maioria, Julian.
Conte-me por que desta vez é diferente.
Julian: Passei quase toda a minha carreira em círculos
conspiratórios. A maioria das conspirações são completos absurdos. Algumas
trazem um fundo de verdade. Outras são engendradas propositalmente para
desviar a atenção de uma verdade ainda mais indigesta. E, em raras ocasiões,
você descobre algo que faz se arrepender de não ter desistido algumas etapas
antes. Aprendi a exercer a cautela quando não sei mais discernir que tipo de
situação estou investigando.
Nora: Essa sua fala foi de uma perturbação incomum.
Julian: Antes não tivesse sido.
Nora: De volta aos terceirizados. Alguma ideia de para onde eles
foram?
Julian: O voo fretado ia para o Egito. E Lara Croft os seguiu.
Nora: E então, aparentemente, voltou para casa.
Julian: No fim, sim. Sabemos aonde ela foi parar. Mas está sendo
muito mais difícil reconstituir o caminho dela do Egito de volta para
Londres. É nisso que tenho me aprofundado, além da questão muito mais ampla
do que o Peru, a Grécia e o Egito têm em comum.
Nora: Você percebe que, com o Egito, fica muito mais difícil ignorar
a situação.
Julian: Poucos lugares despertam tanto fascínio ou tamanha
especulação quanto o Egito.
Nora: Estou quase ficando irritada de ver como boa parte desta
história continua ao sabor das circunstâncias.
Julian: Quase?
Nora: Porque, mesmo indo contra todo o meu bom senso, quero muito
saber o que vai acontecer.
Julian: Fico feliz em ser útil.
Nota da editora: Somos dois. Se você tiver informações confiáveis que
ajudem a preencher as lacunas, como avistamentos, fotografias, registros
de viagem, dados de transporte aéreo ou qualquer coisa relacionada à
passagem da Lara Croft pelo Egito, queremos saber. Pistas anônimas são
bem-vindas. A investigação continua em uma próxima edição de Viagens
Surpreendentes.